“Uma aula sobre o Golpe de 2016”, por Hércules Tolêdo Corrêa

14/05/2018 às 11:18 por Atualizado dia 14/05/2018 às 11:18

Hércules Tolêdo Corrêa é professor da UFOP e apaixonado por literatura, cinema, música e mais um monte de coisas.

Toronto, 29 de abril de 2018

Muitos brasileiros não entenderam bem ainda o que aconteceu e o que tem acontecido na História recente do país. A interpretação mais corrente do fenômeno é que o Brasil está dividido entre aqueles que “são contra a corrupção” – e se vestem de verde–amarelo, como se só eles fossem patriotas – e aqueles que “estão do lado dos corruptos” – que se vestem de vermelho e que também são contra todas as formas de corrupção, inclusive as pequenas corrupções cotidianas, muitas vezes “esquecidas” pelos que se vestem das cores nacionais. Não é bem assim! Definitivamente, não é! De fato, o Brasil parece mesmo dividido, mas a divisão é entre aqueles que apoiam as políticas sociais implementadas nos últimos governos presidenciais, como o Bolsa Família, o Pró-Uni, o Reuni, o Ciência sem Fronteira e vários outros programas que tiraram milhares de brasileiros do estado de miséria, de fome, e levaram tantos outros a alcançar lugares em universidades públicas ou até mesmo a cruzarem as fronteiras do país, indo estudar na Europa e outros países mais desenvolvidos, de um lado; e aqueles que são contrários a esse tipo de política, por se julgarem pertencentes a uma suposta elite, que se sustenta por si mesma e que não vê a necessidade de uma menor desigualdade social, de um outro lado. Normalmente, neste segundo lado estão pessoas que consideram desnecessário pagar os direitos trabalhistas aos empregados domésticos, acham que pobre não precisa nem deve viajar de avião, que nem todos precisam ter lugar nas universidades públicas, que as raças não devem ser misturadas. Claro que uns são mais radicais que outros. Nem todos estão nos extremos.

O documentário O Processo (em inglês The Trial,  poderia se chamar também O Julgamento), dirigido pela brasileira Maria Augusta Ramos, vem para dar uma aula sobre os acontecimentos recentes no panorama político brasileiro, principalmente, no período em que antecedeu à deposição de Dilma Roussef da Presidência da República. Mas o filme não se limita apenas a isso. Há todo um mapeamento do “antes” e do “depois”do golpe na democracia brasileira. Não foi apenas uma questão de “tirar a Dilma”, mas sim todo um quadro complexo em que políticas trabalhistas, educacionais, de saúde política, bem como de outras áreas, foram duramente sucateadas em cerca de um ano, como mostram os letreiros na parte final do documentário.

Sabemos bem da hegemonia da grande mídia brasileira, em que um determinado canal de comunicação lidera disparado a audiência televisiva. Alguns poucos jornais competem também na liderança na área do jornalismo impresso ou digital. Dessa forma, esses grupos mostram o que querem e da forma como querem. Resta ao brasileiro médio, sem muito poder de crítica, sem muito acesso a fontes alternativas, acreditar naquilo que vê e lê (muito mais vê do que lê), crendo piamente que a operação Lava-Jato tem mesmo por objetivo apenas acabar com a corrupção que grassa o país desde que o Brasil foi “descoberto” pelos portugueses, e não apenas iniciou-se a partir do governo brasileiro mais de esquerda.

Maria Augusta Ramos nos apresenta mais2 horas e 19 minutos de imagense vozes dos bastidores da câmara e principalmente do senado federal, das reuniões da Comissão Especial do Impeachment, de debates, de argumentações, para mostrar ao espectador como se deu esse “processo” todo. A senadora Gleisi Hoffmann e o então advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, ganham destaque na tela. Os senadores tucanos Aécio Neves e AntonioAnastasia também aparecem bastante, junto com a tresloucada Janaína Paschoal, em um discurso cínico, que mescla sorriso amarelo e choro desmedido na tribuna.

É um filme para brasileiro ver com emoção e calor, mesmo estando longe de casa, na fria Toronto, no Canadá, que mesmo no início da primavera, ainda teve neve nesta manhã de domingo e fazia cerca de 3º graus Celsius quando eu voltava para casa impactado pelas imagens que acabara de ver. Tive ainda a grata surpresa de conhecer pessoalmente a documentarista Maria Augusta Ramos e ouvir comentários de brasileiros e canadenses sobre a obra, dirigidos à própria diretora. Não perca a oportunidade de entender mais o país em que você vive, meu conterrâneo e amigo carmense! Em maio o filme começa a ser exibido nos cinemas brasileiros.


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