“Possíveis formas de se ver o não visto”, por Vitor Ferreira

16/05/2018 às 11:03 por Atualizado dia 16/05/2018 às 14:36

Vítor sempre teve certo fascínio por eventos do passado, talvez por isso, seja graduando em História na UFOP. Durante a graduação, teve oportunidade de trabalhar com o imortal veículo radiofônico. Tendo aí, contato efetivo com o ofício do jornalista. Apesar de constante “flerte” com o jornalismo, ele mantém seu foco nas práticas de pesquisa historiográficas.

Bom, o primeiro texto desta coluna, de nome: “História e patrimônio na contemporaneidade: o que ainda podemos aprender com o passado?”, tinha como intenção ser uma espécie de introdução ou encaminhamento para outras reflexões que ainda virão acerca da cultura material e não-material das nossas queridas cidades de Mariana e Ouro Preto.

A intenção das reflexões, é induzir o leitor a pensar na questão do patrimônio, um pouco além da que nos são impostas, e mais uma vez, como isto pode nos “ensinar” no nosso “presente prático”. Digo, pensar além da imensa materialidade arquitetônica que possuímos. Ao propor tal caminho, não quero dizer que devemos desprezar ou ignorar  tal “herança” portuguesa, que obviamente possui o seu valor reflexivo. Porém, em tempos como os nossos, uma reflexão crítica-paralela, seria certamente, de mais valia para “presente prático”, dos habitantes da nossa região.

Em certa medida, a “herança” dos nossos colonizadores, está muito mais amostra, está estrategicamente em locais de destaques. No centro da cidade, locais com um elevado tráfego de pessoas e (ou) em locais muito altos. Obviamente, estes locais, tanto em Mariana, como em Ouro Preto, são os que são mais visitados por turistas e que contam com mais avaliações e comentários em aplicativos como o Yelp e o TripAdivisor.

Entretanto, considerando esta forte presença arquitetônica, podemos pensar também, no que não se faz presente nos locais de destaque da cidade, ou sequer, existem de forma material, e (ou) sofrem uma espécie de “apagamento”.

Estes traços culturais, representam um estilo europeu antes de tudo; como se fosse uma espécie de “transposição” da Europa na América. Tais traços portanto, são incapazes, na maioria das vezes, de abarcar as demais culturas que ajudaram a edificar nossas belas cidades da Região dos Inconfidentes.

As igrejas por exemplo, além de por si só, não serem um símbolo para a cultura das Áfricas, não recebem (muita das vezes) o crédito pelo seu trabalho na construção destas.

Portanto, novas perspectivas para a visão destes lugares devem ser incorporadas no nosso dia a dia.

Em 2016, um evento de nome “Inverno Preto”, organizado pelos coletivos “Palma Preta” e “Coletivo Chico Rei”, realizou em Ouro Preto, do dia 02 a 14 de Julho, uma programação “alternativa” da tradicional adotada pela maioria dos turistas. Este novo circuito turístico, inclui visitação à mina Du Veloso e a promoção de Batalhas de Rap e Poesia.

Quem sabe não seja uma possibilidade um evento parecido em Mariana?

Por isso, a importância de eventos como estes, que vão em direção contrária da que a cidade naturalmente e tradicionalmente nos impõe. Para que através deste exercício, passemos a enxergar o valor histórico e cultural destes vários outros, que não está exposta e (ou) divulgada fortemente nos traços “europerizados” da cidade.

Enxergar o que não se vê, o que não está presente, é necessário. Com um exercício tímido, de tentar enxergar os que não são representados, certamente, teremos alguma melhora no sentido pessoal e na dinâmica da nossa cidade.


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