Ouro-pretana luta para manter viva a tradição da Via Sacra do Bairro São Cristovão

Sem incentivo algum do poder público, Íris Maria Vieira, realiza sozinha o trabalho há mais de 15 anos. Ela teme que, com a falta de ajuda, a tradição se perca com o tempo.

20/04/2017 às 18:57 por Atualizado dia 21/04/2017 às 07:40

Foto-Tradicional Via Sacra do Bairro São Cristovão
Crédito-Arquivo – Sérgio Neves – Antônio Roberto 

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Se para muitos a Semana Santa é sinônimo de descanso e diversão, para outros é um período que vai além disso. Para a ouro-pretana Íris Maria Vieira, que completou 65 anos na última Sexta-Feira da Paixão, o período é marcado pela religiosidade e, claro, por muito trabalho. Logo que se encerram os festejos do Carnaval, há 15 anos, a Tia Íris, como é conhecida na cidade, está à frente da tradicional Via Sacra do Bairro São Cristovão e tem lutado, sem incentivo algum do poder público, para que a tradição persista.

Íris conta que a Via Sacra do bairro teve início há mais de 30 anos com um grupo de jovens cristãos, denominados “Juventude a Serviço de Cristo”. “Essa celebração já dura 33 anos”, recorda Íris. Quando, por motivos pessoais de cada integrante, o grupo ameaçou se acabar, a Congregação Mariana em Ouro Preto o adotou. Íris se tornou uma das coordenadoras da congregação e fez questão de levar o projeto adiante.

Ela nos conta que, antigamente, a procissão acontecia somente no bairro, percorrendo algumas ruas e, em seguida, voltando para a Capela de São Cristovão. “Era tudo muito simples, com pouca gente envolvida e foi se aprimorando com o passar dos anos”, disse.

Depois que a Tia Íris assumiu a Via Crucis, começou aparecer cada vez mais gente querendo participar da procissão, que recorda os 14 passos de Cristo desde seu julgamento e condenação no Pretório de Pôncio Pilatos até o Alto do Calvário, onde foi crucificado e morto.

Com a grande procura de pessoas interessadas em participar do evento religioso, as dificuldades também aumentaram.  Às vezes Íris pega roupas emprestadasde pessoas que são figurantes na Semana Santa da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar e, aos poucos, sozinha, ou com a ajuda de pequenas doações, vai criando o seu próprio acervo que sempre necessita de reparos. “Hoje temos 120 figuras com indumentária própria, roupas minhas que eu guardo há anos, sem a doação de ninguém”, diz orgulhosa do trabalho voluntário.

Atualmente o trajeto da Via Sacra passou a ser do bairro São Cristovão até a área de Lazer da Ponte Seca. Íris já tentou expandir o trajeto para outras ruas e bairros, mas não teve ajuda. Vale ressaltar que o projeto exerce também importante ação social – retirar jovens de situação de vulnerabilidade e inseri-los no mundo da religiosidade. “Atualmente são esses jovens que nos dão suporte e ajudam a montar a estrutura para que o evento aconteça”, destacou Íris.

Com o passar do tempo, mesmo com as dificuldades, a procura continua a crescer. Muitos fiéis querem percorrer, mentalmente, a caminhada de Jesus carregando a cruz. “Todos os anos aparecem interessados, mas é muito triste quando uma criança demonstra interesse em participar e não temos roupas”, lamentou. Com a sua luta e persistência, esse ano Íris conseguiu roupas para todas as figuras.

A demanda de Íris, infelizmente, ultrapassa aquilo que ela pode servir. Fiéis de Santa Rita, Cachoeira do Campo, turistas e até mesmo alunos da UFOP têm participado.

Embora Íris precise, e muito, de apoio financeiro, para ela não há dinheiro que pague a alegria de ver as figuras históricas percorrendo as ruas do bairro. A cada ano, nas sextas-feiras da Paixão, a partir das 4 horas da manhã, lá está ela na capela servindo café a cada integrante do grupo.

“Sempre organizo um café, pois temos a participação dos jovens carentes que às vezes saem de casa sem comer para fazer esse percurso todo”. Além do café da manhã, ela ainda prepara uma janta à noite, na sede da Escola de Samba do bairro. As necessidades são muitas, relata Íris. “Estamos precisando melhorar muitas roupas, mas infelizmente, não temos condições”, disse.

Esse ano, com o intuito de ajudar na procissão, ela pediu a contribuição de R$10 reais a cada participante, porém apenas 22 pessoas contribuíram com o dinheiro. Ao todo foram arrecadados somente R$ 220 reais de um total de 120 participantes. “Não posso exigir muito deles, pois temo que as pessoas saiam e a tradição se perca”, explicou Íris.

Se depender de Íris Maria Vieira a tradição da Via Sacra do Bairro São Cristovão não morrerá jamais. “Enquanto eu tiver saúde, a intenção é continuar com o projeto que, além de cultural e religioso, já faz parte da história de Ouro Preto”.

Interessados em contribuir com o evento religioso do Bairro São Cristovão podem entrar em contato diretamente com Íris Maria Vieira, através do telefone 31-9- 8557-5629. Você pode ajudar doando “roupas bíblicas” prontas e tecidos para que as mesmas sejam confeccionadas.


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