“O dia em que a árvore caiu”, por Hércules Tolêdo Corrêa

17/05/2018 às 12:09 por Atualizado dia 17/05/2018 às 12:09

Sempre confundi os significados das palavras tufão, tornado, furacão e ciclone. Acho que há outras semelhantes, mas por ora fico com essas quatro. Por ocasião da minha segunda estada em Toronto, eis que aconteceu um desses fenômenos por estas plagas. Com o vendaval, muitas árvores caíram na tarde de sexta-feira, 4 de maio de 2018, e uma delas ficava exatamente em frente ao número 23 da HowlandAvenue, ou seja, duas casas antes da casa em que eu estou morando.

Feliz ou infelizmente, não vi a fúria da natureza. Estava confortavelmente pesquisando na biblioteca do Ontario Institute for Studies in Education – OISE, quando a ventania tomou conta da Old Toronto. Recebi uma mensagem pelo whatsapp, da minha anfitriã, dizendo que voltasse para casa antes que começasse nova fúria dos ventos. Assim o fiz. No retorno para casa, que não era longe, preferi tomar o metrô, por segurança. Não queria ser levado pelo vento. Mesmo com todo meu sobrepeso, acho que o vento poderia me derrubar!

Depois de uma pesquisa rápida no senhor sabe-tudo, o Dr. Google, vim a sabe que meu ciclone-tornado-furacão-tufão não passou de uma “windstorm”, que nada mais é do que uma simples “tempestade de vento”. Senti-me enganado, como aquela amiga que dormiu com um oficial do exército e acordou com um vigilante, ou aquele outro, que se encantou com um paisagista e acabou com um jardineiro. Nada tenho contra nenhuma das duas classes menos privilegiadas, como a dos importantes vigilantes – para a nossa segurança – e a dos poéticos jardineiros – para nossa felicidade, mas é apenas para mostrar as proporções de nossas expectativas e nossas frustrações cotidianas.

Pois bem, de acordo com um site encontrado no sapientíssimo Dr. Google, o “ciclone, tornado, furacão, tufão… é uma coleção de nomes sobre o que é, aparentemente, um mesmo fenômeno atmosférico: uma forte onda de ventos que se apresenta em formato giratório ou circular e que é bastante destrutiva”. Ainda de acordo com o tal site, os ciclones recobrem grandes áreas e não podem ser avistados a olhos nus, enquanto os tornados podem ser vistos a olhos nus, já que se estabelecem em áreas menores. Mas vale dizer que os tornados podem ser mais devassadores que os ciclones. Já os furacões e tufões – dois tipos de ciclones – acontecem no mar e a diferença está na localização geográfica. Os furacões são formados no Oceano Atlântico ao norte, no Mar do Caribe, no Golfo do México e no Oceano Pacífico próximo ao litoral da América do Norte. Já os tufões são formados no Oceano Pacífico a leste da Linha Internacional de Data, próximo ao Japão, ao sul da Ásia e também na porção leste do Oceano Índico. Portanto, são chamados de tromba d’água”. Bem, lá em Carmo da Mata nunca teve oceano e sempre que chovia demais eu ouvia dos mais velhos que era uma “tromba d’água”… danou-se… Ou não! Mesmo nome para diferentes coisas. Para não dizerem que fui ingrato com a fonte, remeto aqui para o tal site que me contou essas diferenças de sentido:

https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/diferenca-entre-ciclone-tornado-furacao-tufao.htm

Dessas tempestades de vento guardo duas boas lembranças literárias. Tornados sempre me remetem à encantadora Dorothy no mundo maravilhoso de Oz. Quando eu tinha meus 10 ou 11 anos, eu li essa história encantadora, com as sensíveis personagens do Homem de Lata, o Leão Covarde, o Espantalho e a meiga Dorothy com seu cachorrinho Totó em busca do Mágico de Oz no País das Esmeraldas, para retornar ao cinzento Kansas, depois que foi levada pelos ares por um furioso tornado.

Com outro nome, os tornados reaparecem no complexo e denso Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, referência obrigatória para todo mundo que quer estudar a literatura brasileira. Os “redemoinhos” aparecem várias vezes na narrativa do jagunço Riobaldo, para se referir à morada do “coisa-ruim”, do “demo” e de tantos outros nomes citados numa das páginas do livro. Vira e mexe, Riobaldo volta a questionar a existência do demônio, referindo-se também ao “redemunho”, forma popular da palavra “redemoinho”, na sua concepção, a morada do diabo.

E foi assim, com um gostinho de “não vi”, bem diferente do “déjà-vu” desejado, que eu apenas deparei com a árvore caída e amarguei quase doze horas sem energia na casa, o que me impediu de conectar-me à internet… laptop e celular também já estavam sem bateria. O que restou? A boa e velha leitura do impresso à luz de velas canadenses…

Fonte: https://www.thestar.com/news/gta/2018/05/06/annex-family-still-waiting-for-fallen-tree-to-be-removed-from-house-after-fridays-wind-storm.html

Fonte: arquivo pessoal

 


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