Na Coluna Entre-lugar, ‘A cadeira vazia’, por Paulo Geovane e Silva

30/07/2018 às 10:49 por Atualizado dia 31/07/2018 às 22:23

Paulo Geovane e Silva é professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Belo Horizonte (FACISABH) e do Coleguium Belo Horizonte, mestre e doutorando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (Portugal). Escreve mensalmente no Voz Ativa.

Aquele clichê de que a vida imita a arte (ou vice-versa) sempre me ocorre à mente – tanto por ser clichê quanto por ser profundamente útil. Vejamos: o Dadaísmo, movimento de vanguarda fundando pelo romeno Tristan Tzara e seguido por outros tantos seus contemporâneos (Duchamp, Evola, Hans, Picabia etc), propunha uma arte da aleatoriedade e do non sense, de tal modo que uma das principais marcas dessa estética, para além da óbvia ruptura comum a todas as escolas de vanguarda, passou pela valorização da desordem e do caos, de objetos desprezíveis ou inúteis e, portanto, muito bem cumpriu com a sua missão de confrontar e destruir os paradigmas artísticos das escolas tradicionais existentes no século XIX.

Por que, então, evocar a dialética da arte e da vida? Justamente porque, com significativo êxito em relação às demais vanguardas, o movimento dadaísta conseguiu dissolver os sentidos viciados que carregamos sobre o mundo e, assim, ressignificar tanto o nosso modo de ver quanto os objetos que esse novo olhar consegue captar. Eles são responsáveis pela reinvenção do mictório ou do aro de bicicleta.

Essas inspirações me ocorrem em virtude das últimas aulas que lecionei no fim do semestre passado, justamente sobre Vanguardas Europeias. Movido pela revisita desses temas, eu pude, no decorrer das férias, ter uma experiência arrebatadora e composta por um fundo indubitavelmente dadaísta. Depois das aulas, já ia sofrendo o sintoma de olhar o mundo com outra mirada, e eis que, bem no meio da rua, sabe-se lá o porquê (talvez para reforçar ainda mais essa minha outra maneira de ver), presenciei uma cena que muito me perturbou: uma cadeira vazia no meio da rua, angulada a noventa graus do meu campo de visão, de tal modo que eu via, ao mesmo tempo, as suas costas e parte da sua frente estúpida, sem ninguém – a princípio, a personificação do nada, da ausência e da falta. E – repito! – bem no meio da rua.

Depois, e num ímpeto tzariano (não havia como duvidar), fui a outro extremo: eu via tudo.

Qual é o sentido de uma cadeira vazia?

Inconscientemente forçado a mudar o rumo da lupa, percebi que a ausência – nome desde já inadequado para o que (vi)via – tem muito a nos dizer, tem um conteúdo e uma razão, mas a nossa ocidentalidade não consegue lidar com a ausência, chamando-a de vazio ou falta, de “sem” ou de “não”. Esses quatro signos da incompletude denunciam a incompreensão e a dificuldade em lidar com o que não é visto ou perceptível, o que ocorre graças às maravilhas da nossa memória cultural, marcada pelo desejo de suplantar, preencher, saturar. Inclusive, somos educados desde a infância para evitar completamente a ausência: estude, não deixe a mente vazia (oficina do diabo!), não fique solteiro, tenha um filho, compre um carro e uma casa e, depois, encontre a felicidade. Enfim…

Compreendemos, então, a ausência como o nada-vazio, em vez de entendê-la como um conteúdo outro, significativo, um nada-signo, um nada-tudo ou um nada-funcional. Ao ver a cadeira “vazia”, ainda que não ausente de si mesma (o que em si negaria a ausência), ressignifiquei não apenas a minha ideia de não presença, mas pude, além disso, entender que é possível estar em todos os lugares sem existir neles… quantos homens sonharam aquelas cadeiras, quantas mulheres a desejaram, quantas crianças sobre ela brincaram, apenas imaginativamente, e quantas sensações não foram ali sentidas sem ali existirem.

A palavra ausência é contraditória em si mesma, de tal modo que não pode existir: pensar em alguém (falecido ou distante) é uma forma de dar-lhe existência, a qual confundimos com a possibilidade material do Outro. Existir não é (apenas) materializar-se, mas, antes, pressupõe tudo o que cabe e se plasma à substância da memória, da história e, é claro, do esquecimento – a única forma aceitável de ausência. Isto porque, se a ausência ainda é forma, este dado também invalidaria a sua possibilidade e confirmaria a sua contradição.

Cecília Meireles, certa feita, referiu que uma parede branca tem tanto a nos dizer. Talvez eu, assim como ela, pude ter a experiência da presença ausente – e aproveito para compartilhá-la aqui.

Tudo isso eu pude ver na cadeira vazia, onde, depois, não tive sequer coragem de me sentar.

Seria a ausência de coragem ou a presença da contemplação?


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