Medalha da Inconfidência: Marielle Franco é homenageada em Ouro Preto-MG e governador do Estado, orador da cerimônia

21/04/2018 às 17:24 por Atualizado dia 21/04/2018 às 17:24

Foto-Entrega da honraria feita à companheira de Marielle Franco que destacou a presença das causas sociais levantadas diariamente pela vereadora, assassinada a tiros no mês de março na capital fluminense.
Crédito-Manoel Marques

O esforço diário para desenvolver e tornar Minas Gerais um Estado cada vez melhor. Esse foi o sentimento relatado pelos agraciados na Medalha da Inconfidência, realizada neste sábado (21), em Ouro Preto (MG). Durante a solenidade, foram entregues comendas, a maior honraria concedida pelo Estado de Minas Gerais, a 170 personalidades e instituições que contribuíram para o desenvolvimento de Minas Gerais e do Brasil.

Dentre os agraciados com a Grande Medalha, destaque para a vereadora do Rio de Janeiro e ativista dos direitos humanos Marielle Franco, que recebeu a comenda in-memoriam. A entrega da honraria foi feita à sua companheira Mônica Tereza Benício, que destacou a presença das causas sociais levantadas diariamente pela vereadora, assassinada a tiros no mês de março na capital fluminense.

“Na verdade, apesar da tristeza que hoje paira sobre nós, a causa é nobre. A vida dela foi uma vida de luta, de um trabalho de muita construção, sempre em cima da pauta sobre os direitos humanos. Infelizmente, o momento não é o mais adequado, mas essa medalha em algum momento seria entregue a ela, de alguma forma. A ideia é que o legado dela não se perca, o trabalho tenha continuidade, não só por meio dos eventos, mas também das ações diárias de luta, levando as pautas contra o racismo, contra a homofobia, contra o genocídio às pessoas negras, levando a bandeira do feminismo, dando continuidade as ações dela de forma diária”, disse.

Júlio Pimenta, prefeito de Ouro Preto, relembrou a importância histórica e democrática da cidade, destacada na data de hoje. Crédito-Manoel Marques

O Prêmio Nobel da Paz de 1980 e também ativista dos direitos humanos, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, apesar de não ter comparecido, também foi homenageado pela sua contribuição ao mundo. Em 1974, na cidade de Medellin, na Colômbia, o argentino coordenou a fundação do Servicio Paz y Justicia en América Latina, junto com bispos, teólogos, militantes, líderes comunitários e sindicalistas. Ainda atuou no enfrentamento a crimes de tortura e desaparecimento forçado de militantes políticos e agentes comunitários praticados pelas ditaduras militares por toda a América Latina. Por essa atividade, Esquivel recebeu o Nobel da Paz de 1980.

Quem também destacou a importância de ser construir legados para evolução do mundo foi o ex-ministro Renato Janine Ribeiro, agraciado com a Grande Medalha. “Recebo com muita alegria essa homenagem de um governo que é popular. Eu entendo que receber essa medalha é também um reconhecimento à importância da educação. Apesar de o Brasil viver hoje uma crise muito séria do pondo de vista político, ético, social, neste momento ter na educação seu exemplo, pode ser um dos bons motivos para a gente sair disso”, reforçou.

A pequena Esthéfany Rodrigues Ribeiro (10 anos) entendeu a importância de receber a honraria. Em fevereiro, ela sofreu um acidente com um grupo de alunos a caminho da escola em São João Batista do Glória, Território Sul, quanto a Kombi que transportava os estudantes caiu em um barranco. Todas as vítimas foram resgatadas graças ao ato heroico dela e de sua colega Ana Clara Garcia de Oliveira, de 15 anos, também homenageada. “Foi um dia muito triste, mas hoje eu estou feliz por ser lembrada e ganhar até uma medalha”, disse, emocionada.

Quem também acredita que o trabalho em prol do ser humano pode melhorar Minas Gerais é o representante do Cárita Brasileiro, Regional Minas Gerais, Rodrigo Pires Vieira. A instituição internacional, ligada às dioceses da Igreja Católica, tem como propósito ajudar as pessoas mais pobres, dando a elas dignidade. “Nós temos vários projetos na área alimentar, da promoção de hortas comunitárias, de lavouras comunitárias, associações e cooperativas. Essa medalha nos mostra que estamos no caminho certo. Queremos cada vez mais trabalhar e divulgar nossas ações em todo mundo. Hoje estamos em mais de 200 países e nosso propósito é fazer o bem”, afirmou.

Com 67 anos de estudos somente na área eleitoral, Eleonora Fernandes Rennó, conta que está aposentada do Tribunal Regional Eleitoral, mas que a cada ano sente o peso e a importância da democracia para Minas Gerais e para o país.  “Já recebi outras medalhas, mas me sinto feliz por ser lembrada ainda hoje pelo meu trabalho em prol da democracia. O direito eleitoral é o mais democrático de todos, tem muito valor diante da lei, porque cada um é um voto. E é esse o apelo que eu faço, da consciência nesse voto, pois é uma coisa muito importante que nos foi confiada e que pode mudar a vida não só dos mineiros, mas também de todo país”, disse.

O prefeito de Ouro Preto, Julio Pimenta, relembrou a importância histórica e democrática da cidade, destacada na data de hoje. “Ouro Preto se orgulha por ser o berço, o palco das celebrações do dia 21 de abril. Todo pais reflete sobre a Inconfidência Mineira, momento de obstinação do nosso povo, que se expressou de forma veemente, contribuindo para os alicerces da independência da nação”, afirmou.

Social

Dona Cecília Ferreira, ouro-pretana e artesã há mais de 70 anos. Foto-Tino Ansaloni.

Artesã há mais de 70 anos, Dona Cecília Matias do Carmo Ferreira, natural de Ouro Preto, se emocionou ao receber a medalha. “Com essas mãos eu trabalho há muitos desses meus 80 anos. Crochê, eu comecei com 8 anos de idade. Passei meu ofício para varias gerações.Estou e fiquei muito emocionada pelo reconhecimento de Minas Gerais pelo meu trabalho. Apesar de já estar com 80 anos, eu espero ganhar outros prêmios como esse”, afirmou.

O cantor Mauricio Tizumba disse se sentir honrado com a homenagem. “Para mim, essa medalha é um ato de alegria, de reconhecimento do meu trabalho em prol da cultura afro, e por isso eu me sinto super honrado, alegre e feliz, mas certo de que há muito o que mudar em favor do povo mineiro e dos brasileiros. Hoje estamos aqui por conta de Tiradentes, um grande herói”, reforçou.

Foto-Gabriel Tropia representou a Adop no recebimento da honraria. Crédito-João Paulo Teluca Silva

Gabriel Tropia representou a Agência de Desenvolvimento Econômico e Social de Ouro Preto (Adop). Fundada em 2005, trata-se de uma instituição privada, sem fins econômicos, apartidária, criada por meio de parcerias entre empresas locais, poder público e sociedade civil e empresarial.  “É gratificante ser parabenizado por um trabalho exercido com tanto carinho. Em 14 anos à frente da agência temos direcionado toda a nossa força e energia para trazer melhorarias a Ouro Preto”.

Zaqueu Astoni graduado pela Universidade Federal de Ouro Preto, atualmente ocupa o cargo de secretário municipal de Patrimônio e Cultura. O advogado natural de Guaraciaba já ocupou outros cargos no governo municipal e também recebeu a honraria.

Ofélia de Lourdes de Hilário, conselheira da Associação Afro Cultural de Betim CorBrasil, fez da homenagem a continuidade da sua luta diária contra o preconceito e divulgação da cultura afro. “Eu sou militante, desde a adolescência, de movimentos negros e contra todas as formas de discriminação, junto às comunidades mais carentes, nas vilas, nas favelas, em associações de bairro, lutando para a dignidade do nosso povo, para que as pessoas tenham igualdade de oportunidade. Por isso essa medalha me mostra que eu estou no caminho certo”, frisou.

Foto-José Luciano Martins, o “Zé Preto”,  como é mais conhecido em sua cidade natal.

O ouro-pretano José Luciano Martins, o “Zé Preto”,  como é conhecido carinhosamente na cidade, também foi uma das 170 personalidades que receberam a honraria concedida pelo Estado de Minas Gerais. Luciano é morador do Bairro São Cristovão trabalha há mais de 50 anos como garçom do restaurante Casa do Ouvidor, onde desde muito cedo aprendeu o ofício e o exerce com excelência.

Para Túlio Madureira da Silva, produtor de queijo artesanal do Serro, o agraciamento com a Medalha Grau Inconfidência é o reconhecimento do seu trabalho e do setor. “Para mim, é uma honra receber essa medalha e me tornar realmente um inconfidente nessa luta, principalmente pela nossa causa. Porque o queijo faz parte da história e da economia de Minas Gerais, e a gente tem lutado para a valorização e legalização do queijo artesanal”, complementou.

Cerimônia

Criada em 1952 pelo governador Juscelino Kubitscheck, a Medalha da Inconfidência possui quatro designações: Grande Colar, Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência.  Foram 40 agraciados com a Grande Medalha, 58 com a Medalha de Honra e 72 com a Medalha da Inconfidência. De acordo com a Constituição do Estado, o governador Fernando Pimentel baixou decreto transferindo simbolicamente a capital de Minas Gerais para Ouro Preto. A cidade foi a capital mineira de 1823 até 1897.

Neste ano, atendendo aos pedidos da população e para minimizar os impactos na rotina da comunidade local, como, por exemplo, o fechamento de vias importantes da cidade, o Governo de Minas Gerais realizou a solenidade em dois momentos distintos.

A entrega da Medalha da Inconfidência, que exige mais estrutura e tem maior impacto no dia a dia dos ouro-pretanos, ocorreu no Centro de Artes e Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Com a mudança, a cerimônia durou, entre preparativos e solenidade, menos de 24 horas. Em anos anteriores, o local chegou a ficar fechado por mais de 10 dias.

A demanda partiu de lideranças políticas, comerciantes e moradores, afetados pela realização do evento, e foi encaminhada ao governo por meio de ofício. A manutenção, no entanto, de parte da solenidade na Praça visa preservar as tradições da entrega da maior honraria concedida pelo Estado de Minas Gerais.

Na Praça Tiradentes, o governador  foi recebido com honras militares. Em seguida, colocou flores no monumento a Tiradentes e recebeu o fogo simbólico, fazendo o acendimento da Pira da Liberdade. Houve também salva de 21 tiros. O hino nacional do Brasil foi executado pela Banda de Música da Polícia Militar de Minas Gerais. Na sequência, Fernando Pimentel seguiu para o Centro de Artes e Convenções da UFOP, acompanhado por crianças das escolas municipais de Ouro Preto e Rio Doce, onde entregou a Medalha da Inconfidência.

Orador da Medalha da Inconfidência, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel fez um paralelo entre o momento político atual do Brasil e a história de líderes que, no passado, tornaram-se símbolos da luta pela democracia e que garantiram conquistas históricas para os brasileiros.

Em seu discurso, o governador afirmou que “a batalha do nosso tempo é a mesma dos inconfidentes: a luta do ontem contra o amanhã”. “O Brasil viveu a escuridão do arbítrio após o golpe de 64 e caminhou nas trevas durante mais de 20 anos, até reconquistar a democracia. Hoje, essa conquista histórica, que tanto sacrifício custou à nação e à minha geração, está ameaçada pelas violências, perseguições, excessos e abusos de poder”, afirmou.

O governador citou líderes que atuaram não só para mudar a realidade de suas épocas, mas que garantiram um futuro melhor para as outras gerações. “Há líderes que, sem descuidar do hoje, constroem o amanhã. Esses são os que ficam na história. Em Minas Gerais, tivemos o exemplo de Juscelino Kubitscheck. Ele construiu o amanhã com as usinas hidrelétricas, com as estradas que rasgaram, uniram e aproximaram o nosso estado, até então isolado”, disse.

Fernando Pimentel destacou a importância de colocar os interesses da população em primeiro lugar. “Seja quem for aquele que assumir a nobre função de conduzir o destino dos mineiros e das mineiras, sua responsabilidade número um deve ser a de preservar, criar e ampliar o amanhã da nossa gente, assim como fez JK com seu arrojado projeto de desenvolvimento, assim como fez Getúlio Vargas na formatação das leis trabalhistas e da Previdência, assim como fez o presidente Lula com seus bem sucedidos programas de inclusão social. Esses três líderes que mencionei viveram, não por coincidência, a dor da perseguição e da ofensa. Foram vilipendiados, caluniados, injustiçados, e, até porque não dizer, martirizados. Mas são vitoriosos, ao final”, garantiu.

Ato Nacional “Lula Livre”

Logo após a cerimônia oficial do 21 de Abril, que, dessa vez, se dividiu em duas etapas, sendo a primeira delas com as honras militares, aposição de coroa de flores aos pés da estátua do mártir da Inconfidência, execução do hino nacional e salva de 21 tiros, na Praça Tiradentes e em seguida a entrega das Medalhas da Inconfidência, que aconteceu no Centro de Artes e Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto, no bairro Pilar, houve também, momento de manifestação do Movimento Lula Livre.

Após se concentrarem na rodoviária da cidade, assim que a Praça Tiradentes foi desocupada pelo evento, teve início ali o Ato Nacional, que, em Ouro Preto teve maior importância devido a presença das autoridades para a tradicional de cerimônia.

O Movimento fez a entrega da Medalha Quem Luta educa a dez personalidades e entidades e lembraram inúmeras injustiças cometidas contra a sociedade civil. Com a presença da Presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, de senadores, deputados e das principais lideranças do Partido e de movimentos populares e sociais, o Ato Lula Livre, foi sobretudo uma manifestação em defesa da soberania que, de acordo com a organização “vem sendo ultrajada pelo governo e pela mídia golpista, submissos aos interesses internacionais”.

 


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