Leia “Velhas e novas tecnologias”, por Hércules Tolêdo Corrêa

12/06/2018 às 09:46 por Atualizado dia 12/06/2018 às 09:46

Hércules Tolêdo Corrêa é professor da UFOP e apaixonado por literatura, cinema, música e mais um monte de coisas.

Quando era criança tinha dois grandes sonhos tecnológicos. Um deles não podia realizar por falta de dinheiro. O outro, porque não existia ainda. Hoje esses sonhos não têm razão de ser. Podem, ainda, não ser tão facilmente realizados por toda e qualquer criança, haja vista que as desigualdades econômicas e sociais continuam tão grandes no Brasil quanto eram na minha infância, ou talvez sejam até maiores. Mas a evolução tecnológica já tornou possíveis os sonhos de crianças que têm um pouco mais do que o suficiente para sobreviver.

Deixemos de prolegômenos e voltemos aos meus desejos infantis. O primeiro deles era ter um “radinho” de comunicação, daqueles que a gente podia falar de um para um, apenas. No final de cada frase, dizia-se “câmbio”. Eu via isso na TV. Tinha uma outra versão, que era a do radioamador. Esse aparelho não era móvel, como o tal “radinho”, mas de mesa, e geralmente eram usados por adultos solitários, que invadiam ondas de rádio e se comunicavam entre si, de um para um ou dois ou três, não sei bem como funcionava.

Meu outro sonho era a inveja que eu tinha da família Jetsons, que viviam no futuro e tinham um videofone, um aparelho de telefone que permitia não apenas conversar, mas ver aquele ou aqueles com quem falávamos do outro lado da linha. Nessa época, nem telefone comum eu tinha na minha casa. Telefone era coisa de luxo e na minha pequena cidade só havia 99 casas com esses aparelhos. Os números não passavam de dois dígitos. Tinha mais uns três ou quatro telefones rurais, de manivela, que precisavam do auxílio da telefonista para completar a ligação.

Eu acho que não imaginava que, hoje em dia, cerca de 40 anos depois, eu teria um aparelho que alguns chamam de celular, mas que é na verdade um smartphone, numa tradução literal, um “telefone inteligente”, que o que menos faz, provavelmente, é realizar chamadas tradicionais de áudio. Pelo meu smartphone, realiza-se o sonho do videofone quando eu chamo minha mãe ou um qualquer amigo por uma chamada de vídeo pelo WhatsApp. E esse aplicativo, tão popular no Brasil, ainda serve pra muito mais coisa: chamadas apenas de voz, envio de mensagens de voz, de uso assíncrono; envio de mensagens de textos, envio de fotos e pequenos vídeos, envio de documentos em formato .doc ou .pdf e ainda planilhas de Excell e muitas outras coisas mais. Isso não é uma maravilha? O custo é baixíssimo, porque não pagamos pela chamada, e sim pela conexão à internet, e que muitas vezes pode ser usada quase gratuitamente em lugares que têm o famoso WiFi. Aliás, hoje em dia deixamos de ir a um restaurante ou bar, por exemplo, se não existe um WiFi disponível…

Faz uns 15 ou 16 anos que ouvi de uma amiga que ela não tinha mais telefone fixo em casa. Como morava sozinha e trabalhava o dia todo, não era nada funcional e econômico ter uma linha fixa, se as linhas dos celulares, antes caras e com contas também muito altas, já haviam barateado bastante. Pouco tempo depois eu me desfazia, pelo mesmo motivo, do meu telefone fixo. E olha que já cheguei a possuir três ou quatro linhas de telefone fixo, porque chegou um momento que era um bom investimento ter uma linha de telefone fixo e alugá-la. Esse investimento me ajudou bastante na aquisição da minha primeira casa própria.

Mas a ideia para essa crônica surgiu não por causa dos smartphones e as maravilhas que esses dispositivos móveis fazem nas nossas vidas. Surgiu por causa de um outro dispositivo, às vezes móvel, às vezes portátil: a televisão, que reinou poderosa por muitos anos nos lares brasileiros, principalmente na sala de visitas. Uma sala de visitas sem TV era uma tristeza só. Como não ter TV e não poder seguir as novelas?   Tenho longas e boas histórias sobre a TV. Tem a história da primeira TV que chegou lá em casa. Eu tinha seis ou sete anos. Eu e meu irmão ficamos assistindo até altas horas, mesmo sem estar gostando, porque era só felicidade. Depois, tivemos uma TV colorida artificialmente. Explico. As TV em cores eram ainda muito caras e só meus vizinhos abastados tinham, como o advogado e a professora que moravam ao lado.

Quem éramos nós, família classe baixa, pai caminhoneiro e mãe dona de casa, três filhos na escola, para termos uma TV em cores? O jeito foi meu pai comprar uma tela de três cores, que um ambulante passou vendendo. Não era lá essas coisas, mas dava um certo colorido aos faroestes a que assistíamos e à novela As Bruxas ou a primeira versão de Mulheres de Areia, com a fantástica atriz Eva Wilma fazendo as famosas gêmeas Ruth e Rachel: a boa e a má. A TV em cores baixou o preço e para a Copa de 1974 ou 1978 ganhos uma Telefunken de umas 20 polegadas. Era enorme. Pesadíssima. E foi nossa felicidade por muitos e muitos anos. Acho que minha mãe ainda guarda esse aparelho em casa. E acho que funciona!

Estou chegando onde quero, desde o início desta crônica. Sou um apaixonado por TV. Não posso contar tudo, porque senão acharão que não trabalho, que tenho muito tempo livre! Adoro as novelas de todos os horários, os programas da tarde (aqueles que passam baixarias familiares, fofocas de artistas…), reality shows, filmes e seriados. Claro que, com minha evolução escolar, acadêmica e intelectual, passei a distinguir melhor o joio do trigo, mas confesso que o joio muitas vezes me descansa da vida acadêmica. Nada melhor do que ver um bom programa brega no final da noite. Depois, com a TV a cabo, aí que a vida na TV melhorou mesmo. Se comecei a vida com apenas um canal disponível, a Rede Tupi de São Paulo, e se um dia ter a Globo, a Record, a Bandeirantes e o SBT já eram um leque de possibilidades, quando tive disponíveis mais de 100 canais pelas diferentes operadoras de TV a cabo pelas quais passei, procurando os melhores e mais vantajosos planos, isso era o próprio paraíso.

Mas eu fui aprendendo, pouco a pouco, a dividir meu tempo de “videota” com outras telas: a tela do smartphone, a tela do desktop e a tela do meu laptop. Há cerca de um ano levei um susto. Um colega da universidade me disse: as TVs brasileiras estão no vermelho. Ninguém mais vê TV.  Então eu era um dos últimos remanescentes dos videotas?  Então eu era um “fora-de-moda”, um “careta”, um “cafona”, um old fashioned?  Comecei imediatamente a rever meus conceitos. Ainda não tive coragem de cancelar a assinatura da TV a cabo, que não é nada barata. Mas tenho aprendido, cotidianamente, a ver filmes e séries na tela do meu laptop. Quando quero, também posso ligar diretamente meu laptop na TV e ter uma tela com mais de 50 polegadas, bem mais confortável para ver deitado… ou então usar a internet diretamente ligada na smart tv que comprei há uns dois anos e mal aprendi a usar. Mas estou chegando lá. Acho que em breve criarei coragem, cancelarei minha TV a cabo e ficarei apenas com as possibilidades – inúmeras, diga-se – que o computador ligado à internet me oferece.

Sempre é bom lembrar: uma tecnologia não acaba com a outra, apenas revisam-se os usos. A TV não acabou com o rádio. Ainda ouço muito rádio. Mas a maior parte do tempo no carro, em trânsito. Não troco uma sessão de cinema por um filme no Netflix, a menos que as condições climáticas e o horário não sejam favoráveis. Adoro uma pintura e adoro fotos. Adoro ouvir meus CDs e até meus discos de vinil, mas também gosto do Spotify. É isso!


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