Leia “Um Natal diferente”, por Roberto dos Santos

06/01/2018 às 16:09 por Atualizado dia 06/01/2018 às 16:09

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

As luzes da cidade de Ouro preto já estavam acesas, a noite já começava a esconder as montanhas que a circundam. As luminárias rústicas auxiliadas pelas luzes natalinas davam cores às edificações centenárias, atraindo a atenção das pessoas que caminhavam pela história.

Depois de caminhar pela Rua Getúlio Vargas, passar pela Rua São José e chegar à ponte próxima a casa dos contos, parei e sentei, pois a iluminação do casarão dos contos estava atrativa e dava cores aquele cantinho de Ouro Preto.

As pessoas paravam para fotografar, teciam comentários e depois seguia em frente, eu em contrapartida não arredava o pé do lugar.

Muitas pessoas passaram por mim, apenas um rapaz compenetradosentou- se ao meu lado e soltando a voz em meio aquele cenário natalino bradou por socorro e as cores do natal ficaram em segundo plano.

“Amar é um ato grandioso, é diminuir-se para que o outro jamais se sinta pequeno, é ter coragem de fazer-se cego para que o outro enxergue a luz”, essas palavras ele disse sentado e cabisbaixo, me pedindo desculpas por professa-las, entendendo que sua falação estivesse me incomodando. Explicou na sequência que as palavras não eram de sua autoria, mas que havia se apossado delas para explicar um amor que ficara em sua cidade. Notei angústia e mágoa em seu semblante, por isso deixei que falasse sem exigir qualquer explicação.

Após confidenciar-me sua cidade de origem, começou a relatar em prantos uma história comovente que nem nas melhores novelas havia visto algo parecido.

Contou-me que estava casado há onze anos e que seu matrimônio apresentava características de normalidade, sendo que o respeito mútuo figurava entre as paredes de sua casa. Esta era impressão que se desenhava, porém a realidade escondia uma história deprimente que o fez passar de personagem principal a coadjuvante.

Notou certo espanto em minha face, então se levantou e ficou de frente para mim, ignorando por completo a casa dos contos. Em minúcias começou a esmiuçar os acontecimentos que o afligia.

Há quatro anos, numa terça feira à noite eles jantavam em casa como de costume, entre uma conversa e outra ela perguntou se o zoológico abriria aos sábados, ele quis saber por que, mas ela desconversou afinal seu marido trabalhava todos os sábados.

No fim de semana ele foi trabalhar e durante a jornada de trabalho ligou várias vezes para o telefone dela, mas não conseguiu falar-lhe.

Após o trabalho e já em casa partilhou seus insucessos na tentativa de falar com ela e imediatamente se explicou dizendo que a bateria de seu celular estava sem carga e por isso não detectou as ligações.

Duas coisas o intrigaram:

A pergunta referente à abertura do zoológico aos sábados e o fato do celular estar descarregado, sendo que quando saiu pela manhã estava no carregador e em ponto de bala, sem mencionar ainda o fato de que a casa estava do mesmo jeito que deixara quando saiu pela manhã e pela primeira vez ele desconfiou dos passos dela e ela percebeu a pulga atrás da orelha dele.

Apagou os registros de ligação daquele dia e interagiu com ele nas redes sociais deixando em seu poder o celular na tentativa de que suas suspeitas fossem sucumbidas ante a sua demonstração de confiança.

Enquanto falava, os pingos de chuva começaram a cair na Rua São José e o espetáculo promovido pelas águas quando tocava as pedras não era percebido por ele.

Mas ele queria mesmo era continuar sua história que naquela hora se transformara em desabafo, dado a necessidade que tinha em prosseguir falando.

Para tirar a cisma que persistia cortante, pensou em vasculhar o e-maildela, só que para isso precisaria descobrir a senha para a pretensa verificação.

Como ela colocava a mesma senha em tudo que tinha devido ao medo de esquecê-las, maquinou uma forma de consegui-la.

Foi a uma loja para efetuar uma compra, levou o cartão dela, errou propositalmente a senha até que fosse bloqueada, pagou a conta com o seu cartão e posterirormente o colocou no local onde havia tirado.

Quando precisou ir ao banco para providenciar o desbloqueio a acompanhou e lá descobriu os números que compunham a senha. Faltava verificar se era aquela a chave que daria acesso ao e-mail dela.

Quando ficou sozinho em casa tentou entrar no e-mail e na primeira tentativa obteve êxito. Era a hora de tirar a prova, se não encontrasse nada ficaria tranquilo e esqueceria tudo.

Mas o desejo de que não houvesse nada se frustrou quando no primeiro e-mail aberto,viu nitidamente ela chamar outra pessoa de amor, e dizer da falta que sentia dele, e o destinatário dessa frase de amor não era ele. Quase levitou e as palavras que lia parecia lâminas a penetrar-lhe o coração. Ficou sem rumo, desligou o computador e com o peito em dor cortante aguardou a chegada de sua esposa como se nada tivesse acontecido.

Naquele dia tomou um comprimido para dor de cabeça e fingiu dormir. Pensou a noite toda no que fazer e as saídas que vinham à mente tinham potencial catastrófico para a vida de sua amada.

A chuva continuava a cair mansa e sobre as pedras da calçada, um espelho d’água me fascinava, porém o forasteiro não percebia nada, pois seu desabafo o impedia de ver as belezas da noite de Natal e enquanto meus olhares abrangiam os arredores, ele quase não piscava e no afã de se livrar daquela dor, continuou a confidenciar-me a vida.

Ela trabalhava de assistente social e desenvolvia um projeto inovador. As diretrizes desse projeto era toda direcionada para o desenvolvimento familiar e as ações pensadas tinham como metas a estruturação das famílias. Sua família carregava em si o status de referência para os frequentadores do projeto.

Optei pelo silêncio, e agindo assim conservei no coração de todos, a certeza de que a solução para muitas coisas no mundo se encontra no seio de uma família. Acabei descobrindo a diferença entre felicidade, infelicidade, alegria e tristeza.

Felicidade é fazer a coisa certa, pensando assim a encontrei dentro de mim.

O tempo foi passando e ela nem desconfiava que ele soubesse de tudo. O chamava de amor, fazia carinho em seus cabelos, tudo parecia normal. Ao rapaz do e-mail ela declarava todo o seu amor, e lamentava não poder viver o amor deles. Já o marido contentava-se com as sobras desse amor, tudo para preserva-la e não fazer desmoronar um trabalho tão frutífero e bonito.

Por um instante desistiu de prosseguir nesta história triste e disse o motivo de ter vindo a Ouro Preto. Dizem que aqui há um mistério em que magia eencanto se misturam e fazem dessa cidade única, que quando passamos por aqui nunca voltamos pra casa do jeito que chegamos.

Vim atrás dessa magia e encanto que me fará novo. Sei que voltarei para casa e encontrarei tudo como deixei, mas quem sabe essa magia me faça novo e me fortaleça para suportar as agruras de minha vida.

Despediu de mim e foi embora sem a menor cerimônia, as palavras fartas que pronunciou por longos minutos se emudeceram e nem tive a oportunidade de confortar seu coração.

Saí para ver o Natal e as luzes deste tempo e encontrei essehomem que veio a Ouro Preto pedir socorro e num cenário natalino encontrou-me e me ensinou mais uma forma de amar, desassociando completamente as sensações e frenesis como única forma de amor.


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