Leia, “Ouro Preto dos Amantes”, por Roberto dos Santos

02/02/2018 às 15:48 por Atualizado dia 03/02/2018 às 18:24

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

No seu primeiro dia em Ouro preto, ela visitou as minas de ouro, caminhou pela cidade, foi aos mirantes da Rua João de Paiva e também da Universidade Federal de Ouro Preto. Descansou e no segundo dia tinha como meta visitar a Praça Tiradentes e seu entorno, pois as recomendações dos conterrâneos que já estiveram na cidade davam conta de que nesse perímetro concentravam-se muita riqueza, tanto material quanto imaterial.

Ela veio de João Monlevade, cidade que não fica muito longe de Ouro Preto. A viagem ela ganhou de uma amiga que sabia do desejo da moça em conhecer esse cantinho de Minas Gerais.

Programaram juntas as férias de trabalho e cinco dias foram o tempo que planejaram ficar na cidade monumento mundial.

Era o segundo dia das moças na cidade. Quando estavam onde a Rua Teixeira Amaral se encontra com a Rua São José, avistaram lá no alto as torres da Igreja São José e com as lentes das máquinas direcionadas naquela direção eternizaram o momento. Minutos depois já estavam lentamente subindo a Rua direita observando os casarões e tomando cuidado para não escorregarem nas pedras lisas que acolhiam seus passos.

Os semblantes demonstravam satisfação diante do viam, em todas as direções avistavam imagens que os olhos jamais haviam vistos.

Mas a moça que comemorava seu aniversário escondia por detrás de seu vislumbre um sentimento oculto que ofuscava em parte a realização do sonho de conhecer Ouro Preto. Sua amiga imaginando o motivo dela estar assim, perguntou se estava com saudades. Ela sabia que o coração da amiga palpitava por um amor que deixara pra traz. Ela também sabia que o rapaz que ficara em João Monlevade nutria pela amiga o mesmo sentimento, mas a timidez de ambos os impediam de se encontrarem. Mantinham esse amor contemplando a distancia a face um do outro, mesmo estando no mesmo bairro.

Já haviam conhecido muita coisa nos dois dias que estavam na cidade, sendo que a Monlevalense que queria conhecer Ouro Preto também conhecera a saudade.

Enquanto subiam rumo a Praça Tiradentes, a amiga falava ao telefone. E alguns passos depois já estavam no meio da Praça e os olhares a todo o momento encontravam coisas que chamavam atenção, em qualquer direção que olhavam viam vultos da história e melhor ainda estavam inseridas nesse cenário de beleza.

Dirigiram-se para perto do Museu da Inconfidência, a amiga pediu licença e recuou alguns passos para de novo falar ao telefone. Enquanto isso a aniversariante percebeu lá no meio da praça, bem de frente pra ela uma estátua que parecia olhar na sua direção.

Sentindo-se acolhida nem atinou que se tratava do grande Tiradentes, em sua retina a imagem gravada se confundiu com a de Jesus.

Sentada nas pedras e olhando para o alto, fez preces a Jesus como se estivesse falando com ele. Mencionou o nome do amor Monlevadense, e lamentou nunca ter dito que o amava. Esse receio em declarar-se a ele a deixava com medo de que se apaixonasse por outra pessoa.

Conversava com a estátua chamando a de Jesus e prosseguia sua dor de amor. Com o olhar fixo na imagem que pensava ser Jesus, disse em prantos a falta que sentia de seu amor e confidenciava como seria bom se ele estivesse ao seu lado. Aquela cena tocante chamou atenção de um homem que também visitara a cidade e indo na direção dela perguntou o porquê das lágrimas incessantes. Sem querer dar detalhes ela disse estar fazendo uma prece a Jesus. Disse isso com os olhos fixos no Tiradentes lá alto da praça. O visitante intrigado, disse em tom interrogativo: mas não é aquele o Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes? Ela se assustou e calou-se. Observou bem agradeceu ao homem e caminhou na direção da amiga. E a outra percebendo a chegada dela encerrou o papo que empreendia via telefone já perguntando se tudo estava bem, depois foram embora para descansar.

No dia seguinte ainda com resquícios de escuridão o moço de Monlevade chega à cidade e se hospeda na mesma pousada. Dorme por duas horas e depois desce para tomar café. As duas amigas tomavam café numa mesa virada para a parede. De repente ouvem um sonoro bom dia, respondem e olham na direção da voz e deparam com o conterrâneo pedindo permissão para ocupar uma das cadeiras vazias.

Depois de concedida a permissão, a aniversariante com os olhos vermelhos e de novo umedecidos não conseguiu dizer nada. Sua amiga se permitiu ficar apenas alguns minutos e depois pediu licença para ir ao quarto deixando a sós os amantes saboreando o melhor café da manhã de suas vidas. Eles embora enamorados, nunca haviam estado tão próximos e ficado tanto tempo juntos.

Minutos depois um mensageiro adentra aquele espaço e em seu braço carregava um buquê de rosas vermelhas. Ele o entrega ao rapaz que imediatamente o repassa a moça. Ela o acolhe em seus braços, abaixa-se com suavidade e de olhos fechados sente cheiro das rosas, o odor das flores se entranharam em seu ser parecendo levar a sua alma todo o amor que o rapaz nutria por ela.

Os olhares se encontraram e em ambos, as lágrimas rolavam representando um amor que transbordava de tanto que não cabiam dentro deles.

Naquele dia eles passearam o dia todo e de braços dados rompiam os corredores ouro-pretanos, que além de belos tinham a função de embalar o amor dos forasteiros.

A noite ele foi embora e as amigas se reencontraram e foram partilhar os feitos do dia. A amiga que acrescentara em seu currículo função de cupido, disse a aniversariante que fora ela que havia convencido o rapaz a fazer-lhe a surpresa da visita. Foi ai que a amiga entendeu os telefonemas demorados do dia anterior. A aniversariante perguntou o que ela havia feito enquanto esteve sozinha, e ela só disse que visitou muitos lugares.

À noite a amiga voltou a Praça Tiradentes, ergueu os olhos em direção à estátua e agradeceu com palavras simples e sinceras. Você pode não ser Jesus, mas conhece bem ele e deve morar perto dele porque não demorou nada para atender meu pedido.

Ficaram mais dois dias e foram embora como o planejado, e em João Monlevade tinha um moço ansioso pela chegada delas, da próxima vez que vier a Ouro Preto certamente não estará só, e a cidade monumento mundial estará de novo pronta para acolher os amantes de nosso tempo.


Comente com o facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *