Leia, “Amor além da vida”, por Roberto dos Santos

02/03/2018 às 13:15 por Atualizado dia 14/04/2018 às 12:30

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

A fazenda tinha oito janelas de cada lado, indicação de que ali morava uma família importante e de posses. Distante uns trezentos metros da sede tinha uma construção de pedra coberta por sapê. Nela moravam os escravos da casa, e nas suas atividades constava o trabalho nas minas como ocupação prioritária.

Entre eles já estavam definidos aqueles que labutariam nas minas e os que fariam os trabalhos da casa sede.

Essa organização nada tinha a ver com direitos adquiridos, mas sim uma forma dos patrões se organizarem para obter maior produtividade, já que o tratamento dado a eles objetivava na íntegra a obtenção de lucros.

Sem ter como mudar o desenrolar dos acontecimentos, mas mantendo acesa a esperança, iam entre dores e sofrimentos vencendo as pelejas do dia a dia.

O proprietário daqueles cativos, embora os mantivessem em flagrante estado de submissão, não tinha a noção de que aquele povo da senzala era muito mais do que ele podia imaginar. A única coisa que conseguia escravizar neles era a mão de obra, pois os sentimentos e amores eles mantinham intactos dentro deles.

O olhar opressor do dono dos escravos o impedia de ver que entre eles havia um negro robusto que se posicionava bem no meio da fila que todos os dias se formava e seguia em direção as minas. Seu procedimento intencionava ocultar-se perante os capatazes que caminhavam à frente e na retaguarda, pois todos os dias que passava diante da janela da cozinha,indo e voltando das minas,via uma moça de cor negra preparando as refeições dos patrões. Eramos dois únicos momentos que ele conseguia vê-la. Ficava intrigado com o fato de não conseguir vê-la à noite na senzala. Suas características eram de gente de seu povo, porém nunca era vista entre eles.

Depois daquela rotina se repetir por anos, ele notou que a moça também o olhava, e o fato de encontra-la diante da janela todos os dias nada tinha a ver com o acaso. Ela na verdade estava sempre a espera-lo. Ambos ansiavam pelas horas do dia em que a janela se transformava no portal do amor. Eles tinham apenas a essência do olhar e um leve esboço de sorriso para se amarem. Sem nenhuma palavra os corações se encontravam e o pensamento dos amantes era um dia ficarem juntos, mesmo sabendo que as circunstâncias em nada lhes favoreciam.

Os dias iam passando e Vila Rica ia ficandocada vez mais pobre, suas riquezas atravessavam suas fronteiras, desbravava oceanos indo parar em mãos estrangeiras.Mas nem isso tirava a magia e o encanto do lugar. Em suas terras os escravos sofriam sem deixar de amar.

O amor de dois negros escravizados era a prova da incondicionalidade desse sentimento, afinal o sofrimento oriundo do trabalho nas minas persistia, porém o amor que ganhou vida dentro deles se tornou inviolável.

Certo dia a rotina não se repetiu, ela não o viu passar pela janela em direção ao trabalho nas minas, ficou preocupada, mas o silêncio em que vivia a impediu de bradar. O sol chegou naquela manhã como na maioria dos dias, tudo estava como antes, o dia estava lindo, o trabalho caminhava com mesma fluidez costumeira, a única coisa que ofuscava a beleza da manhã era a preocupação e o desejo de saber o que havia acontecido com o rapaz de porte destacável que naquele dia não passou diante da janela. Mas o tempo não parou e ela se preparou para continuar os afazeres do dia. Preocupação e tristeza se transformaram num só sentimento. Pegou o balaio para ir ao pomar, pois aquele era o dia da semana em que colhia frutas para a fazenda. O escravo designado para acompanha-la e carregar o balaio de frutas já estava a sua espera na porteira da fazenda.

Quando lá chegou estremeceu-se toda, sendo o motivo de tal manifestação à visão que acabara de ter. O escravo a espera-la era o moço que não lhe proporcionara a alegria de vê-lo pela manhã.

Toda preocupação se desfez, o olhar se reacendeu, a alegria voltou e o moço também trêmulo, sorriu discretamente com medo de que o capataz que os esperavam ao longe percebesse algo diferente.

Caminharam alguns metros em profundo silêncio, mas dentro deles o amor gritava e não cessavam os agradecimentos a Deus pelo momento tão especial.

Chegando à porteira do pomar o capataz permitiu que entrassem, e lá ficou a esperar que retornassem após a colheita.

Pela primeira vez ela ouviu a voz dele, e as primeiras palavras foram dirigidas a ela com a intenção de saber o porquê de não ficar na senzala.

Ela respondeu que as cozinheiras da casa tinham um quarto anexo a fazenda para facilitar a lida diária e o atendimento aos patrões.

A colheita ia transcorrendo lentamente e o desejo deles era prolongar o tempo de forma quepudessem ficar juntos o maior tempo possível.

Já distante do capataz, enquanto colhia laranjas dizia a ela tudo que sentia. Dizia do desejo de abraça-la e sentir as batidas de seu coração, e que essas batidas fossem as mesmas que ouviria no momento em que os corpos se tocassem afinal aquele abraço os uniriam de tal forma que seriam apenas um. O suor dava aos corpos negros um brilho que se misturava ao brilho dos olhos e as sensações sentidas beirava o êxtase.

As mangas ainda verdes eram colhidas por ele, que com sua agilidade subiu no pé, e lá do alto ia derrubando as frutas. Olhou para a porteira do pomar e não viu o capataz que estava a vigia-los, pulou do galho em que estava com a mesma agilidade que o fez chegar lá, deu ciência a moça do que acabara de ver e encorajados pela ausência do vigia, se atiraram nos braços um do outro, esse gesto significava a explosão de um amor reprimido e por longos minutos se prenderam num abraço que parecia nunca ter fim. Não diziam nada, apenas se sentiam, e um choro silencioso regado a lágrimas, era a expressão de um amor que não cabia em si.

De repente nas montanhas de Vila Rica ecoou um estampido agudo que foi percebido em toda a sua extensão, e na sequência o silêncio voltou a imperar.

O capataz estava a espiona-los e entendendo que haviam ido longe demais alvejou os apaixonados sem dó nem piedade.

A bala entrou pelas costas do moço, e quando saiu pelo seu peito encontrou a sua frente à bela moça e no mesmo impulso a atingiu com fúria, transpassando por completo seu corpo e alojando no imenso pé de manga.

Mas o coração de ambos onde o amor habitava nada sofreu.  Ainda abraçados sentiram a vida se esvaindo, pois o coração batia lentamente sustentado apenas pelo enorme sentimento que os envolvia.

Ele pediu perdão a ela sabendo que não resistiria aos ferimentos, mas ela imediatamente disse não ter nada a perdoar, também sentido a brevidade do momento, e acrescentou que aquela seria a única forma de ficarem juntos para sempre. Pediu a ele que segurasse forte a sua mão e que não desfizesse o abraço,disse ainda para partirem juntos para o outro lado da vida e prosseguindo na despedida falou com Deus:

Eu sei que ai no céu tem um lugar para nós dois, quando chegarmos diante de ti agradeceremos o amor que há em nós e para sempre ficaremos junto de ti.

Depois dessa breve oração, os corpos abraçados e com as mãos entrelaçadas já estavam sem vida, tendo como testemunha o balaio de frutas e o enorme pé de manga.

O capataz que havia ido a fazenda buscar ajuda, se assustou ao encontra-los como estavam e não tinha a menor ideia da grandeza daquele momento.

E o céu a partir daquela hora era muito mais amor.


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