Leia a crônica “Pescador de estrelas”, por William H. Stutz

19/02/2018 às 19:02 por Atualizado dia 19/02/2018 às 19:02

 William H. Stutz é médico veterinário e escritor

Já falei para vocês da nossa mesa 15.

Da confraria ali formada há alguns anos. Dela participam as mais variadas pessoas. Citando alguns nessa salada multi profissional e cultural: temos advogados, comerciantes, juizes, promotores, professoras, contadores, DJ. Poetas, escritores, veterinária,  produtora cultural, Dentistas, médicos e até, vejam este que vos fala, um misto de escritor, poeta e também veterinário de estranhos bichos

Passamos por poucas e boas. Viajamos juntos para ver a história de perto, em lugares “nunca dantes navegados” para muitos de nós. Brigamos, forte expressão, briga  não, discutimos muito.

Temos gente de direita, esquerda, centro e muro. Defendemos nossos pontos de vista com fervor pátrio pouco visto.

Se dependesse  da mesa quinze eleições  acabariam sempre  empatadas. Resolvidas talvez no par ou ímpar mas  se preferir, no cara ou coroa.

Sim, temos cada pega pra capar, que nem te conto. Nem por isso nos tornamos inimigos. Depois do pau muita risada e é como se nada tivesse acontecido. Política, política, amizades a parte.

Respeito absoluto pelo livre pensar e manifestar.

E no futebol? Temos aqui atleticanos até debaixo d’água, corintiano, palmeirense, vascaíno, flamenguista. botafoguense e até cruzeirense. Mesma história, gozação não pára, amizade sólida.

Uns gritam suas ideias  outros sussurram pacientes. O tom de voz não impõe vontades, sempre em tranquila paz terminam as prosas ou trovas

Gosto musical? Deus nos acuda, temos roqueiros, jazzistas, bluezeiros, MPB pura, do qual faço parte, afinal meu aprendizado vem da época em que se fazia boa música. Tem sambista, confesso sou ruim da cabeça, tem pagodeiro e até quem goste de sertanejo, mas nossas afeições não desafinam, seguem harmônicas.

Agora estamos passando pela primeira vez pela perda de um dos nossos. O querido Alcides alçou vôo. Partiu sem avisar.

Particularmente não o conheci muito, quando cheguei à mesa 15 ele ainda se fazia sempre presente, mas depois de breve tempo teve que se afastar. Continuamos a trocar prosa em nosso grupo virtual. E conheço de cor e salteado suas histórias e façanhas em barrancas de rios Brasil afora contatadas pelos amigos mais próximos e companheiros de pescada. Sim, era um apaixonado por uma boa pescaria.

Alcides companheiro, foi pescar lá no céu.  Posso sentir sua paz e alegria ao ferroar um imenso e belo cometa da cauda imensa e brilhando, vejo o baita saltar como Dourado na imensidão do cosmos, rabear em tentativa  vã de escapar de suas  experientes mãos no trato com o molinete/carretilha . Estrelas menores de afastando, abrindo espaço, em susto com a celestial batalha. Fim de linha, Sorriso aberto nos lábios recolhe a cansada e valente presa. Mansa encosta, não é embarcada, com ligeiro afago a liberta, assim, sai lentamente a vagar no infinito procurando retomar seu eterno trajeto. Alcides, se tornou um feliz e iluminado Pescador de Estrelas e Sonhos.

Vai fazer falta aqui, mas suas histórias cristalizadas, serão contadas sempre. Vá em paz meu amigo, vá em paz. Algum dia estaremos todos nessa beira de eternidade a navegar na mesma canoa,  onde prevalecerão sempre rios piscosos e imensos em beleza e lonjura , risos e amizade. Ai posso sim, lhe pedir ensino no manejo de tanta tralha e, como em felicidade pescar tantas estrelas e tão belos sonhos. Até!


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