Leia a crônica ‘Olha o trem’, por William H. Stutz

13/03/2018 às 11:35 por Atualizado dia 14/04/2018 às 12:06

 William H. Stutz é médico veterinário e escritor

Posso te garantir meu caro amigo e hoje, em particular, minhas amigas, dedilho esse contar em pleno 8 de março, passou eu sei mas assim foi,  dia internacional da  mulher. Particularmente e sendo bem lugar comum, acho que todos os dias pertencem a vocês. Pode acreditar, não é lamechice de minha parte não, é constatação. Assim através de amores passados, esquecidos e principalmente pelo iluminado amor que junto a mim está, companheiro, escudeiro “amiga para todas as horas, várias faces de uma só pessoa” e de minha filha maravilhosa, envio meu carinhoso abraço a todas as mulheres guerreiras desse vasto mundo. O mundo é de vocês Marianas, Marílias, Marias que não vão com as outras.

Há assunto ainda fervilhando aqui em minha cabeça de vontade de contar. Quase passo o meu espaço falando de vocês o que seria ótimo, mas não posso perder o fio da meada, senão como poeira de estrada quando passa caminhão, levanta dispersa e some nas palhadas, nos pastos, nas manchas de mato. Chuvisco fino que não chega a molhar.

História que aqui reconto me foi contatada, não carrego os créditos do caso nem posso dá-los pois ao mundo pertencem, talvez até conheça, mas o registro tem que ficar.

Em pequena cidade em pé de serra, vazia de barulhos e de gente, três meninos cresceram juntos, claro que havia mais crianças no pequeno grupo onde ainda se usava “Caminho Suave” e à vezes até palmatória. Mas esse trio era diferente, amizade siamesa, xifópaga. Podia contar, onde um estava era só passar olho e achavam-se os outros. Se por acaso um era pego roubando fruta em quintal castigo para os três. Cresciam pé no chão alegres e pregados. Frango caia de maduro de poleiro, direto na panela ou fogueira. Os pais dividiam e pagavam o vizinho enfezado com a traquinice.

Adolescentes, hormônios à flor da pele, suavam frio/quente, êxtase ao espiar as meninas nuas em banho de cachoeira. Exaustos, pernas bambas, seguiam em alegre silêncio até se prostrarem em gramado e bancos de praça. Nenhum pio, apenas as estrelas como companheiras. Logo, recompostos a algazarra de sempre. Três que valiam mil em contar detalhes e fechar de olhos.

O tempo. “Medida arbitrária da duração das coisas”.

A pequena cidade não os cabia mais. Buscar rumo, não tinha jeito. Resolveram fazer concurso do Banco do Brasil, carreira promissora, futuro certo. Bota um estudar sem fim.

Vendas, botecos e zona. Tinha sim. Era pequena mas como manda a tradição a zona lá estava e sempre cheia, inclusive em dias de semana. Um terror das matronas.

Dizem que foi lá que nasceu a história do vendedor de panelas que, ao ser surpreendido pela noite em suas andanças, buscou pouso no único hotel da cidade. Banho tomado resolveu sair para aventura. Perguntou ao porteiro do hotel onde ficava a igreja. Com sorriso de mineiro cordial indicou direção. O mascate pegou o oposto: — Uai moço, a igreja é prá lá!

Maroto, respondeu em cochichos  — Eu vou é pra zona sô, pelo que sei é sempre do lado contrário das igrejas. Padre ia deixar ser diferente?

Pois nem tempo tinham os três. Era um estudar que só. Montanhas de apostilhas chegavam quase todo dia pelo correio.

A prova foi na Capital. Belo Horizonte os recebeu barulhenta e com seu trânsito agarrado de sempre.

Exame feito, agora era esperar resultado.

Meses de agonia depois e pronto toca a comemorar. Fecharam todos os bares e vendas da cidade. No último, vendo que não iam embora o dono proclamou:  – Toma a chave dos fundos. Vocês vão marcando o que beberem no caderno e depois acertam, vou dormir, o, leiteiro passa cedo. Só não vão me botar fogo na venda!

A luz tinha caído como sempre e lampião de querosene iluminava o ambiente. Naquela noite o gato do armazém dormiu em paz sobre seu saco de arroz preferido e nem camundongo ousou botar bigode fora da toca, tamanho furdunço.

Dia amanhecendo, abraçados seguiram para a estação de trem, cada um ainda com uma garrafa de Fernet pela metade.

Tontos se jogaram no banco da velha estação se deixando ficar. Passou hora e mais hora. Num sobressalto o rapaz acordou. Cabeça doía que só. A luz do amanhecer entrava por seus olhos como zagaias afiadas. Na ponta do banco o cabo da polícia estava sentado com as mãos entre pernas e dedos entrelaçados. Sem nem olhar para o rapaz que conhecia desde molecote, com voz paternal lhe murmurou:

— Tá vendo, estudou tanto e agora que ia assumir o posto perdeu o trem. Seus amigos embarcaram tontos, mas foram. Tem vergonha não?

O moço aprumou, coçou cabeça e assim, do nada, começou com risada miúda, que foi crescendo, crescendo até transbordar em gargalhada de rolar no chão. A cabeça doía, mas o riso era impossível de segurar.

Sem entender nada o cabo já ia ficando era assustado.

Enlouqueceu rapaz? Eu vou é chamar o doutor e seu pai.

O moço ainda no chão de tanto rir, que doía corpo inteiro:

— Carece não cabo, carece não. É que na verdade só eu passei. Só eu é que ia viajar, os amigos vieram foi me trazer aqui na estação

Levou semana para os outros voltarem.


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