Leia a crônica ‘Nove moças e um frango’, por William H. Stutz

28/11/2017 às 15:17 por Atualizado dia 28/11/2017 às 15:17

William H. Stutz é veterinário e Escritor

Este não é um conto chauvinista, explicado? O ano? Não me lembro mais. nero  Época boa, estudante morando em república, precisa mais? Apertos comuns a todos e já deles falei, mas que eram recompensados por uma vida em que a maior preocupação era fechar todas as matérias do período. Apesar de o curso ser integral, dava-se jeito de trabalhar à noite. Aulas de inglês. Puxado, mas divertido. As repúblicas faziam alegria e aborrecimento da cidade, morar vizinho de uma podia ser sinal de dor de cabeça. Sempre tivemos vizinhos muito bons e compreensivos, nos suportavam, relação harmônica.

Pois foi nesse tempo que aconteceu ótima passagem. República só de garotas. Nove de uma vez, cobiçadas, viviam cortejadas por filas imensas de estudantes vorazes em adolescência. Moravam em um prédio baixo, três ou quatro andares apenas. O apartamento delas parecia dormitório de colégio interno de freiras. Sete camas militarmente enfileiradas e, ao fundo, um beliche.

Sempre imaginava como seriam as noites ali. Lá pelas tantas, os falares dormindo, os roncos, é, acha que não? Meninas também roncam e alto às vezes. Pensa-se que cozinhar não seria problema, pois dezoito prendadas mãos estariam ali sempre alegres e dispostas a fazer almoço e jantar. Vai nessa. Pena que em nosso tempo não existia Restaurante Universitário (RU). Ali nas meninas custava sair um café. Nove de uma vez, cada uma com um gosto, cada uma com desgosto de alguma coisa. Coentro nem pensar, sal de mais, sal de menos, comida no óleo, comida na banha. Melhor era cada uma comer onde bem entendesse.

Ciclos menstruais sincronizados têm disso, convivência. Casas dos horrores de cólicas e humor tétrico, TPM voando pela janela em rosnares. Ai do moço estudante que aparecesse por lá nesse período rubro-negro do mês. Assim eram as nove meninas. Um belo dia, resolveram, depois de muita, mas muiiiita conversa, fazer um frango caipira. Uma delas trouxe de casa na roça um vivo. Começou o dilema, quem ia matar o penoso. A faca de pouco fio, como quase toda faca de república feminina, passava de mão em não.

– Não pode ter dó senão não morre!

– Eu não faço isso nunca, faço veterinária para cuidar de bichinhos e não matá-los.

– Ah sei, mas churrasco no Vila Verde você come, né!

Passa o tempo. Tentam imobilizar o frangote. Uma segurando numa asa, outra noutra e nas pernas mais duas. Seis para imobilizar, uma para sangrar. Arrancar as penas do pescoço outro sofrimento.

– Pega minha pinça de sobrancelha – gritou uma. – Tadinho…

– Já diz, não pode ter dó! Ai é que não morre nunca.

Tarde caindo, fome apertando, o galo exausto quase se matando para ter sossego. O que se via eram nove meninas descabeladas, suadas, espalhadas pelos cantos. Não deu outra, desistiram e, banho tomado, refeitas e maquiadas, faceiras foram comer galeto frito no Sobrado, felizes da vida ver os moços e serem vistas. De lá para o Pedal (D.A. da Pedagogia, Economia, Direito, Artes e Letras).

Quanto ao frango. Bom, este também se refez, trocou penas, saiu da requeima do pretenso sacrifício, mudou-se para terreiro de vizinho das meninas. De lá, toda madrugada, cantava forte atazanando-as até que formadas, foram embora cada uma para seu canto.

 


Comente com o facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *