Leia a crônica “Caça Palavras”, por William H. Stutz

08/02/2018 às 11:34 por Atualizado dia 08/02/2018 às 11:37

 William H. Stutz é médico veterinário e escritor

Começou outra vez e não é de hoje. O contar novamente me some. Ideias e vontades brincam de começar e sumir esconde-esconde de impacientar. Exatamente como palavras cruzadas de revista/jornal de nível considerável. Não. Parece mais Caça-palavras daquelas de circular com caneta e a maioria está de fasto ou de lado em curva. Aí fico em mato sem cachorro, acho não. Procuro as histórias e elas fogem ligeiro, não me dando tempo de rabiscar papel. Conheço bem meu sistema. A história nasce miúda, vinda de um sussurro perdido, de um ver de canto de olho, de um observar quieto. Andando meio a tais, atento sem por atenção, pois não carece, vem sozinho.

Conto o fato que de uns dias prá cá parece orquestra em afinação antes de concerto, cada um ouvindo seu próprio instrumento atento ás notas. Violinos, trompete, metais em desarmonia até batuta de maestro bater desconfusão. Os sussurros se transformam em algazarra de maritacas estridentes em pé de goiaba carregado, o observar confuso de quem anda desatento, o ouvir pouco, meio que fechado. Sinto cheiro de pólvora no ar. Os assuntos andam televisivos. Todos repetindo como papagaios, que me desculpem os lindos emplumados repetidores de sons, como se lessem cartilha de alguém.

Vai tentar manifestar em público opinião bem sua, criada do seu pondero, influência alheia nenhuma, fruto seu por atenção, sem interesse de partido tomar. Um Deus nos acuda de contra-pontos e censuras, a diversidade, a pluralidade, o simples pensar. O respeito é da boca pra fora. Outro dia um amigo colocou um vídeozinho na rede com dizeres tipo assim: “O que acontece quando você expõe sua opinião na internet”. O vídeo mostra a antológica cena de Piratas do Caribe, onde Johnny Depp na pele do capitão Jack Sparrow  aparece correndo em uma praia, perseguido por centenas de nativos dispostos a jantá-lo. Hilária a participação de um solitário cachorro que se limita a latir para Sparrow e depois para a caterva enfurecida.

Ai meu amigo, como planta sem rega vamos murchando. As palavras que deveriam compor casos vamos engolindo. Cortadas quase sempre ao meio por algum suspiro salvador. Resultado? Hoje as palavras se escondem por todo canto a me olhar, em um desafiador “vem me pegar”.

Teimosia não me falta e sei que é passageiro. Acho que acontece com todo atrevido que resolve bater chapéu em caixa de letras, em cutucar pensamentos e ideias com vara curta. Hora elas revoltam e lhe dão um sumiço.

Mas a faxina já começou, saibam. Vassoura e basculho  a percorrer quinas  e os mais altas e escuras quinas , depois aspirador emprestado, recolho as fujonas e em comum acordo voltamos as pazes, ao um bem querer cálido e harmônico.

Vivo de contar o vivido/sentido/passado. Sem isso flutuo em vácuo desconecto. Sinto falta de compartilhar estrelas, infinito olhar de paisagens, de trocar olhar sisudo por sorriso largo de quem perde tempo com meus rabiscos e de tentar tirar a cabeçada e o freio das convenções. E olha que tenho viajado muito, chão rodado mesmo, não só aqui dentro.  Com meu livre pensar, acender velas e soltar vaga-lumes, cobrir novamente cabelos longos maravilhosamente revoltos e longos de margaridas.

Perfumes meu amigo, perfumes em letras exalar. Estou voltando, ressaqueado  de super dosagens de crueldade humana, mas estou logo ali com minha tralha cheia de letras e histórias. Voltando com toda força e verdades escondidas a serem escancaradas. A porteira entreaberta me dá um sinal

Em paz, tranquilo, mas com toda disposição no falar.


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