“Eu, o vento e a saudade” na Coluna “Prosa na Janela” com Roberto dos Santos

02/08/2017 às 14:37 por Atualizado dia 02/08/2017 às 14:37

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

Por Roberto dos Santos

Primeiro dia de Agosto, ouvi um barulho suave na janela da cozinha parecendo alguém querendo acordar a todos da casa.

Abri a janela e o meu rosto foi tocado por um vento não muito forte, porém bastante frio, eram os primeiros ventos de agosto cortando de ponta a ponta a cidade de Ouro Preto e por um instante se deteve ante a minha presença trazendo-me ares de alegria. Não demorou muito e a saudade também se fez presente, era o vento a lembrar de que chegara o mês dos pais, e aquela interação com o tempo e o vento acabara de me lançar numa viagem ao passado onde revivi as mais belas histórias em que meu velho pai protagonizara.

Um homem simples, humilde e notável, principalmente no trato com as pessoas.

Obtive de Deus a graça de conviver com ele dezenove anos de minha humilde existência, tempo suficiente para constatar que se tratava de um homem de sucesso.

Cuidou de nove filhos sem que precisasse de sua intervenção na resolução de algum problema provocado por eles. Também não precisou busca-los em nenhum bar embriagados ou por qualquer outro motivo.

Um homem rico, mas de poucas posses, uma contradição perfeitamente explicável, já que priorizava riquezas que pudesse levar e também deixar como herança quando escrevesse a última página no livro da vida. Esforçou-se para que dentre as riquezas que possuía, o bom exemplo fosse a que mais contribuísse para que os filhos fossem verdadeiramente ricos e ele tinha muita coisa boa.

Saí então e fui ver como estava o tempo, ao longe vi um pouco do azul do céu já que as nuvens tomavam quase que totalmente a imensidão acima de nós. Eu vi os bem-te-vis, os pintassilgos, os pardais, os tico-ticos, a revoada dos pombos, os carros na Rua Padre Rolim, as árvores que vigiam a igreja São Francisco de Paula deixando a mostra apenas as partes altas e as torres,tudo estava belíssimo como todos os dias, mas algo especial que só eu via tornava tudo ainda mais deslumbrante.

Fixei o meu olhar naquela brecha de azul no céu e ela funcionava como uma imensa tela de cinema onde eramprojetados acontecimentos de minha vida, o meu pai era o personagem principal. Eu o vi chegar do trabalho cansado à tardinha e depois abençoar a todos. Eu o vi no seu silêncio característico lançar sobre nós olhares de amor, afinal sua quietude e jeito de ser nos ensinou a viver o amor muito mais do que dizê-lo.

Depois de muito tempo revivendo acontecimentos envolvendo meu pai, a emoção tomou conta de mim e as lágrimas que outrora deslizaram sobre a dor da perda, agora repaginadas corriam sobre o manto dasaudade e em queda livre alcançavam o chão na esperança de que o sol as aquecesse e o processo de evaporação pudesse leva-las ao infinito, e quem sabe por lá encontra-lo em algum lugar construído e preparado por Deus como prêmio por ter combatido o bom combate.

Fechei os olhos por alguns minutos e só ouvia os pássaros e uma canção ao longe que nem conseguia identificar qual era. De repente me vi de novo a pensar e dessa vez eu via tantos pais com as mãos estendidas sobre a terra. Econcentrado naquelas imagens consegui identificar algumas pessoas. Vi de novo o meu pai, Seu Zé Mariano, Seu Jamiro, Vi o pai da Marli lá de Vila Pavão, vi seu João pai do Márcio, do Milton e do Silvio, vi seu Januário, vi seu ZéNunes pai da Dalva, da Helenice, Vi o pai da Adriane e da Angélica, eu vi tantos pais conhecidos e outros que conheci naquela hora. Alguns abençoavam, outros perdoavam, outros pediam perdão, outros diziam que fariam diferente se tivessem nova oportunidade, contudo estavam imensamente felizes e orgulhosos por verem seus filhos caminhando retamente. Eu vi também o pai da Cintia, ao longe fazer para mim o tradicional “joia” com o polegar direito.

De novo quando abri os olhos eu via só vultos naquele telão arquitetado no único azul do céu na primeira manhã de agosto, talvez para que eu encontrasse não só meu pai, mas todos os papais que passaram por aqui.

Alguns minutos depois voltei os olhos para o alto e uma cortina branca cobria o céu por inteiro, aquele azul não estava mais lá, mas eu estava feliz, pois naquele pedacinho de azul pude fazer uma viagem no tempo.

Antes de entrar de novo em casa e tomar meu café da manhã, fiz uma oração e nela também elevei preces pelos pais que hoje se encontram de pé e firmes nesse solo sagrado chamado planeta terra; pedi a Deus que os abençoassem e os fizessem sempre fortes na caminhada diária, e ainda que fossem para seus filhos uma seta a guia-los, e no calor da oração pedi também pelos filhos; para que eles sejam dóceis aos seus pais, ouvindo-os e procurando seguir o bom caminho.

Depois agradeci a Deus, afinal também sou pai. Adentrei a minha casa tomei meu café e fui cuidar de meus afazeres, afinal tem muito Agosto pela frente, era só o primeiro dia.

 

 

 

 

 


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