‘Entre a casa grande e a senzala’, por Roberto dos Santos

08/11/2017 às 11:24 por Atualizado dia 08/11/2017 às 11:24

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

A casa era grande e a sua linda fachada indicava que ali morava alguém influente em Vila Rica.

Os portais eram de pedra sabão trabalhados em cantaria, as portas tinham dimensões gigantescas, as fechaduras e dobradiças moldadas artesanalmente, ainda tinha uma pequena casa nos fundos erguida com imensos blocos de pedra, que misturadas às outras sem tanto esmero, compunha todo o conjunto de edificações da casa grande.

As paredes daquela casa grande testemunharam uma história de amor vivida desde a mocidade.

Relatos de um pequeno diário encontrado num compartimento secreto construído propositalmente para guarda-lo. Nas páginas amareladas daquele manuscrito as palavras revelavam acontecimentos da vida de uma moça que desde a adolescência nutria em si um amor proibido.

Da janela de seu quarto ela via as águas deslizarem pelas pedras e mais abaixo despencarem em queda livre proporcionando um espetáculo de rara beleza realizado para ela todos os dias.

Toda essa preciosidade foi descoberta por uma jovem que quando dormia se assustou ao perceber sua cama se deslocar para o lado. Um dos pés da cama havia se apoiado a alguma coisa debaixo daquele pedaço de tábua podre que sustentava o leito em que dormia.

Ela mesma arredou a cama e notando a presença de algum objeto, removeu facilmente o pedaço de tábua podre se deparando com uma caixa de madeira toda revestida por dentro. Visivelmente o intuito era de proteger o embrulho acondicionado dentro da caixa. Esse cuidado conservou intactos os escritos da moça que contemplava as águas e que hoje estava nas mãos de outra moça que todas as noites sem saber dormia sobre o assoalho que guardava os segredos de mais um romance em Vila Rica e que mesmo sem os registro da história se eternizou no coração dos amantes.

A moça que encontrou a caixa morava no Bairro Antônio Dias, próximo das ruas da conceição e Santa Efigênia, sendo que nos fundos havia uma ruina bem parecida com a pequena casa de pedra.

Parecia mesmo que se tratava da casa que serviu de cenário para a história de amor sem precedentes, havia muitas semelhanças, porém o cenário estava alterado em relação ao original descrito no diário.

Na noite da descoberta a moça não dormiu, passou a noite toda lendo o diário.

Ficou sabendo que a jovem do tempo do ouro desde criança tinha se apaixonado pelo filho de uma escrava da casa.

Eu brincava com ele e a minha mãe não gostava de me ver fazendo isso, sempre que via, mandava o pequenino para dentro da casa de pedra. Era a senzala que a noite os escravos dormiam e que as crianças ficavam confinadas tendo contato apenas entre elas. Isso minha mãe deixava, pois repetia sempre queos escravos deviam conviver entre elese servirem aos seus Senhores. Essas eram as primeiras informações que o diário trazia.

Mas com o passar do tempo aquele pequenino que não podia brincar comigo cresceu e eu também,não sei por que, mas passei a desejar muito estar com ele, poucas vezes eu consegui me aproximar dele, só mesmo quando eu ia à senzala com alguém da casa. Ele já trabalhava cuidando dos cavalos e preparando as montarias sempre que precisávamos

Eu estava com vinte e sete anos e ele também, eu sabia a idade dele, porque nasceu ali e no mesmo ano que eu.

Comecei então a pensar uma forma falar com aquele escravo, mas ele ficava do outro lado da casa e só vinha na casa grande para realizar alguma tarefa.

Arquitetou então aprender a cavalgar, na esperança de que sua mãe ordenasse ao rapaz da senzala que a ensinasse, já que ele sabia lidar com cavalos.

A mãe relutou em fazer a vontade da moça, porém ela a convenceu dizendo ficar apenas nos arredores da casa.

Quando ficou a sós com o rapaz a poucos metros de onde morava, posicionou-se de um lado do cavalo e o seu instrutor do lado oposto.

Ela não disse nada, mas o olhou no fundo dos olhos, o moço ficou confuso, pois nunca havia sentido algo semelhante antes, naquela noite tinha no rosto um sorriso a mais, mas mesmo assim não entendia o que sentia.Que desejo era aquele de encontrar de novo sua patroa.

Elanão dormiu pensando nele, ela queria dar outros rumos a prosa que travavam quando se encontravam para as aulas de montaria. Ao invés das explicações ela desejava ouvir palavras de amor, mas ela não tinha a mínima ideia do que seu amor escravo estava sentindo.

Na hora de aprender a montar no dia seguinte o rosto negro do homem, escondia um sorriso proibido, por detrás de sua condição e cor, tinha um homem que estava apaixonado pela sua sinhá.

Ela notou algo novo no semblante dele, alguma coisa boa que fazia a distância que havia entre eles ficar menor. Ela conservava em si uma bondade e certa simplicidade, embora fosse patroa tinha receio da reação do rapaz.

Alguns dias se passaram e já conseguindo montar, era chegada a hora da prova final. Iriam mais adiante sendo que ela conduziria sozinha sua montaria, ele a acompanharia para garantir sua segurança. Sua mãe não se opôs afinal a constância dos treinamentos havia provocado nela uma ponta de confiança no escravo. Ela não desconfiava de nada entre eles e nem tinha receio de que seu escravo fugisse, pois não era comum fuga de escravos nas redondezas e os próprios negros sabiam que não valiam a pena. Mantinham a esperança da liberdade, mas ainda não haviam encontrado o meio seguro de consegui-la.

Antes da cavalgada final, foram dar água aos cavalos, ela não precisava ir, mas foi com escravo até a cocheira que ficava atrás da senzala, era o único lugar que não se via da casa. Chegando lá ela pegou a mão suada daquele moço, puxou até que os rostos se tocassem e naquela hora a cor da pele tão observada naquela época ficou em segundo plano. Enquanto os cavalos tomavam água, eles viviam os momentos mais sublimes de suas vidas. Mas não podiam demorar, pois se fossem vistos juntoscertamente seriam separados para sempre.

Aquela que seria a cavalgada final acabou por se repetir por mais uns dias, era a forma que encontraram para se amarem.

Depois de passarem quase vinte e dois anos vivendo um amor silencioso, a moça se viu sozinha no mundo. Seu pai acabara de falecer e ela confusa não sabia o que fazer.

Primeiramente pensou em entregar-se publicamente ao seu amor, mas logo viu que se assim o fizesse seria aniquilada e perderia tudo. Só o fato de ser mulher jáexigia dela uma habilidademaior para conseguir dar continuação e obter êxito nos negócios que o pai deixou como herança.

Combinou com seu amor para que ele mantivesse tudo como antes, que os negros daquela casa continuassem como se tudo estivesse inalterado, mas que construiria uma passagem secreta que iria dar nos porões da casa grande, e lá fariam suas refeições e ela sempre que pudesse, iria ensina-los as habilidades da escrita.

Ninguém podia saber que tudo estava bem, senão perderiam tudo, pois iriam isola-los, era melhor que fosse assim.

Os negros que os pais dela escravizaram não viviam mais angustiados e eles mesmos trabalhavam sem que um feitor estivesse à espreita e os outros donos de escravos que viviam nos arredores tentavam de todas as formas saber como uma moça sozinha conseguia fazer tudo aquilo andar sem conflito algum. Muitos tentaram conquista-la, mas já madura conservou-se fiel ao seu amor, eles então acreditavam que seu coração era duro e viam nisso a razão do seu sucesso na condução dos negócios.

Eles se casaram em cerimônia nos moldes da cultura negra, tendo como testemunha todos os negros da casa grande e sem que os de fora soubessem que a felicidade morava naquele endereço.

Os de fora os chamavam de negros escravos quando se referiam aos trabalhadores da casa grande, já dentro dela eram chamados de amigos, sendo que um deles ela chamava de amor.

A moça que descobriu o diário fechou a última página, seu rosto estava umedecido por lágrimas de emoção, ela não imaginava que nas páginas amareladas escondidas no assoalho debaixo de sua cama estivesse tanto amor.

Não encontrou mais nenhuma informação, e antes de informar a todos a descoberta, leu as últimas palavras do diário:

“Eu vivi com um homem que os outros chamaram de escravo e eu chamei de amor, ele até me confessou ser pouco para mim, mas mesmo se achando pouco me deu tudo”. Eu gostava do negro da sua pele, quando se misturava a brancura da minha, eu via o céu em seus abraços.

Nunca deixem de amar, o amor sempre haverá de valer a pena.


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