“Em algum lugar do infinito”, por Roberto dos Santos

17/05/2018 às 12:04 por Atualizado dia 17/05/2018 às 12:04

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

Todas as noites ele sonhava com um campo florido, mas foi a partir da terceira noite que se viu parado numa trilha que cortava uma imensidão de flores.

Ele olhava lá no ponto futuro, e seus olhos vislumbravam desenhos que o deixava a beira do êxtase. Viu ao longe o céu que parecia uma imensa tela de cinema, e nele era projetado o reflexo das flores e algo que parecia a lua em dose dupla. Uma delas com formas gigantescas e a outra num tamanho menor, tendo elas o formato crescente. As nuvens alternavam a cor branca e rosa, talvez absorvendo o reflexo das flores. Além de tudo isso, tinha também muito azul naquele céu.

Parado no inicio da trilha ele observava esse espetáculo de beleza, as flores pareciam tocar o céu ao longe. A imagem dava a impressão de um cinema a céu aberto, sendo as flores os expectadores e o céu uma tela a reproduzir asimagens para seu deleite. Mas para ele as flores e todas as outras manifestações compunham o mesmo ato. Ele queria ter percorrido aquela trilha na direção do infinito, porém antes disso acontecer os sonhos diários trouxeram nova protagonista, ele saia de cena para dar lugar à outra pessoa cheia de mistérios e particularidades.

Era a imagem de uma mulher a ocupar o mesmo lugar em que outrora seus pés pisavam. Mas ele não percebeu de imediato que se tratava de uma mulher, apenas sabia que alguém estava no inicio do caminho. Algumas noites depois a imagem se formou nitidamente em seus sonhos. Era uma mulher alta de cabelos longos, no seu pulso esquerdo tinha uma pulseira, o vestido era lilás e longo, a perna direita estava descoberta até a panturrilha, já à esquerda, apenas o pé estava à mostra e o dedo maior era a única parte que tocava o chão, o calcanhar estava suspenso dando a impressão de que um passo seria mudado naquela hora. Suas mãos erguiam a barra do vestido protegendo-o do contato com o chão.

Ela parecia já ter caminhado boa parte do caminho ou se preparava para iniciar o mergulho no mar de flores.

A real situação não estava clara e o jeito dela dava margem a mais de umainterpretação, deixando incógnitos seus movimentos. A imagem aparecia sempre congelada na mesma posição.

Ele se sentia vivo naquele lugar e quando acordava tinha plena consciência do que vivera a noite enquanto sonhava. Uma sensação indescritível, assim ele definia essa passagem de sua vida.

Cinco passos marcavam a distância entre ele e o inicio da trilha, local onde ela sempre aparecia nos sonhos olhando inerte e fixamente para o lugar onde as flores pareciam tocar o céu.

Ele não conseguiu em nenhum momento visualizar o rosto dela e isso o fazia ansiar sempre por novo sonho. Ele tinha na mente que se tratava de uma belíssima mulher, era o que ela deixava transparecer quando altiva surgia em seu sonho.

Os sonhos seguiram acontecendo, e numa dessas noites, notou seus pés tocarem o chão das flores, experiência inédita, nunca vivida nas outras vezes que sonhou.Foi envolvido por umapaz tremendaegrande felicidade. Estando a cinco passos da mulher, desejou incontrolavelmente caminhar até ela para ver o seu rosto. Ele deu o primeiro passo e ela também avançou na trilha, ele deu mais um e mais outro e ela também seguiu no mesmo compasso. Ele então retrocedeu e voltou à posição original. Ela fez o mesmo caminho de volta e todos assumiram o lugar em que sempre estiveram. Intrigado com tudo aquilo, ele deu mais um passo atrás para ver se ela o acompanharia, mas dessa vez ela permaneceu quieta e no característico silêncio. Ele então entendeu que o lugar em que se encontrava era o limite estabelecido para estar naquele sonho. Ele não tinha nem ideia dos critérios que permeava os acontecimentos e muito menos quem os estabelecera.

As razões ele desconhecia e embora tenha vivido todas as emoções daquela noite especial, não conseguiu ver o rosto da mulher.

Algum tempo depois os sonhos começaram a diminuir de intensidade, até que cessaram. Ele se entristeceu, afinal não conseguiu ver rosto da mulher. Sentiu falta das sensações agradáveis que preenchiam seu coração quando a encontrava em seus sonhos.

Toda noite ele esperava que pudesse sonhar novamente e nesse vazio conservava viva a esperança de reviver esses acontecimentos que tanto lhe marcaram. Mas o tempo foi passando e os sonhos abundantes de outros tempos, não mais se desenharam em sua mente. Mesmo triste aceitou o inevitável e se conformou com o desenrolar dos acontecimentos.

Algum tempo depois em sua cidade, entrou numa livraria para comprar um livro e se deparou com uma situação bem próximado inacreditável. Avistou emoldurado na parede uma estampa que reproduzia fielmente o saudoso cenário dos sonhos e a personagem que o compunha:

O campo florido, as luas, as nuvens multicores,a mulher cujo rosto nunca se via, o vestido lilás, o adorno em seu pulso, os cabelos longos, a trilha, o céu azul e todos os detalhes percebidos no seu sonho.

Conversou com a dona estabelecimento que lhe chamou reservadamente e lhe contou a história do quadro na parede.

O autor da obra de arte o deixou na livraria indicando o local na parede onde ela devia colocar o quadro e o valor que deveria vendê-lo quando alguém viesse compra-lo. Essas foram às informações passadas ao homem dos sonhos pela proprietária da livraria. E ainda disse que os proventos arrecadados oriundos da venda, seria o pagamento por ela ter guardado o quadro até que o comprador aparecesse.

Após adquiri-lo pelo preço estabelecido pelo autor que o havia deixado na livrariaa alguns anos,ele tentou descobrir quem era ele, mas não encontrou nada a respeito, ninguém identificou os traços que pudesse levar ao autor. O material usado na pintura não foi encontrado em nenhum catálogo, ficando sem explicação todos os acontecimentos vividos.

Ele tinha a quase certeza de que aquele cenário não era deste mundo, mas que existia em algum lugar do infinito, que aquela trilha tinha um destino final e que aquela mulher tinha um rosto bonito. Sabia que o fato de não ter podido ir além de aonde chegou, também tinha um propósito, mas devia ser coisa boa, pois naquele lugar tudo era magnífico.

Sem as respostas que buscou por anos, ele seguia a contemplar a beleza emoldurada em sua parede e esperava encontrar um dia a mulher do quadro ou o autor da obra arte.

E três perguntas não saiam de sua mente:

Que lugar era aquele?

Que mulher era aquela?

Quem foi o autor da obra?


Comente com o facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *