Desempregados enfrentam chuva e frio em busca de vagas em Mariana-MG

O desastre ambiental da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, não causou somente prejuízos ambientais, destruição de comunidades inteiras e mortes. O crime ambiental ainda afeta de maneira preocupante a economia da região dos Inconfidentes.

11/07/2018 às 11:44 por Atualizado dia 11/07/2018 às 14:03

Foto-Desempregados enfrentam chuva em frio à procura de uma vaga de emprego em Mariana
Crédito-João Paulo Teluca Silva

Como se não bastasse o frio dessa madrugada de quarta-feira (11), dezenas de desempregados que dormiram ao relento em frente à agência do Sine de Mariana (MG) em busca da tão sonhada vaga de emprego tiveram de lidar também com a chuva. A prática, que já deixou de ser novidade na primeira capital de Minas Gerais, revela o desespero de centenas de marianenses em busca de uma oportunidade.

Houve quem chegasse às 19h para garantir a chance de conseguir um encaminhamento a uma das empresas com vagas em aberto. Foi o caso de Weverton da Silva. Casado, 27 anos, o ajudante de obra está tentando há algum tempo um emprego, mesmo que temporário. “Estou na luta há mais de três meses. Eu venho faço a ficha, sou encaminhado e não dá em nada”, disse o jovem.

A vaga cobiçada pela maioria dos desempregados e que refletia certa melhoria na qualidade de vida era a de ajudante de reflorestamento. A empresa contratante, que não divulgou os rendimentos para a função, estava disponibilizando 15 vagas e exigia ensino fundamental incompleto, além de pelo menos seis meses de experiência comprovada em carteira.

Apenas uma oportunidade

O medo de passar vergonha não impede que Weslley Oliveira, de 21 anos, corra atrás de trabalho. Preencher a ficha para se candidatar à uma vaga, às vezes, é motivo de apreensão já que ele mal sabe ler e escrever. “Eu não tenho vergonha, moço. Pedir emprego nunca foi vergonhoso para mim, vergonha é roubar e matar”. Há mais de um ano, Weslley, que mora sozinho e perdeu os pais aos 10 anos, tem se virado no trabalho informal, o famoso “bico”. “Pego o que aparece, já fiz de tudo, entreguei panfletos na rua, lavei carros, capinei. Mas até os bicos sumiram”, conta.

O relato de Weslley é ao mesmo tempo reflexo e contradição de uma nova realidade no Brasil. No dia 30 de novembro de 2017, o IBGE divulgou dados de uma pesquisa que revela a volta do aumento da informalidade no país. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), quase 70% dos empregos gerados no último trimestre do ano passado foram informais. Isso significa que 10,8 milhões de pessoas estão trabalhando sem carteira assinada. “Eu só preciso de uma oportunidade, mas eles sempre pedem experiência e eu não tenho, como vou conseguir um emprego?”, indaga Weslley.

Organização e solidariedade

O que chama a atenção, ali debaixo das marquises do Centro de Convenções Alphonsus de Guimarães, local onde os jovens procuram abrigo do frio e da chuva, é a forma como eles se organizam e a troca solidária que acontece entre aqueles que têm o mesmo objetivo de uma vida mais digna. É muito comum a doação de café e outros lanches que são levados para enfrentar as horas de espera pela ficha com uma senha no Sine. Um rapaz levou o cobertor de sua filha para emprestar ao colega. “Nessas horas em que nos falta quase tudo, não podemos nos esquecer da solidariedade”, disse Marcelo Oliveira, 32 anos, pedreiro desempregado. Outros se responsabilizam por anotar o nome das pessoas, conforme à hora de chegada. “Precisamos nos organizar para não dar confusão e para que ninguém fure a file”. Até as 21h da noite de ontem, eram contabilizadas 42 pessoas que esperavam a abertura da agência às 8h da manhã.

Vítimas do desemprego

Se o município de Mariana, pólo minerador de ferro e manganês ferrífero e décimo mais rico de Minas Gerais viveu tempos áureos no passado, a realidade atualmente é outra. O desastre ambiental da barragem de Fundão em Bento Rodrigues não causou somente prejuízos ambientais, destruição de comunidades inteiras e mortes. O crime ambiental ainda afeta de maneira preocupante a economia da região dos Inconfidentes. E a volta da extração do minério em Mariana, de forma responsável, é um tema em pauta no governo municipal desde 2015.

De acordo com a última pesquisa publicada pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o desemprego em Mariana atingiu um número recorde em 2017. Os dados revelaram que mais de 13 mil pessoas começaram o ano sem trabalho, o que significa cerca de 23% da população. A pesquisa revelou ainda que 1/3 dos moradores da cidade está à procura de emprego.

 


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