“Declaração de Amor”, por Roberto Santos

09/10/2017 às 14:44 por Atualizado dia 09/10/2017 às 14:44

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

Declaração de amor

Por Roberto dos Santos

Era considerado um homem diferente, seu modo de pensar lhe custou muita dor e sofrimento.

Seus anos de vida já somavam quase quarenta, e no desenrolar de seus passos vida afora, desenvolveu a ideia de que o amor era muito mais do que as pessoas o definiam. Achava pouco quando classificavam de amor, emoções individualistas que tendiam para o unilateralismo.

Percebi tal concepção após confidências de um amigo logo após desligar o celular e indignar-se com algumas publicações das redes sociais. Casado há sete anos e motivado pelo que viu na internet começou a partilhar comigo sua vida amorosa, traçando uma linha do tempo que descrevia seus passos com ênfase total no amor.

Toda quarta e sexta feira, após sair do trabalho, jogava futebol com os colegas na quadra próxima ao campo da Associação Atlética Aluminas em Saramenha. Nesses dias notava um grupo de mulheres em número de cinco que atraiam a atenção dos futebolistas quando passavam em caminhada em direção à pracinha da Bauxita.

Uma delas sempre se virava levemente para esquerda e no ato da ação, seu olhar sempre encontrava o dele, era minutos que valiam a pena serem vividos. Havia algo naquela mulher que o atraia inexplicavelmente e que o fazia ansiar pela sua passagem nos dias da bola.

Ela era de baixa estatura, a cabeça sempre alta e até mesmo quando disfarçava o olhar mantinha se ereta, não olhava pra traz, seu olhar estava sempre no ponto futuro. Ele tinha que estar atento, pois o olhar daquela pequena se mirava na direção dele apenas uma vez, era exatamente quando passava no ponto onde se encontravam as Ruas Milton Campos e Domingos Mendes, logo a frente sumia entre as árvores e seguindo a Rua Simão Lacerda era vista bem o longe rumo pracinha da Bauxita.

Isso se deu por meses, até que num domingo ensolarado ele a encontrou na Praça Prefeito Amadeu Barbosa na barra fazendo a feira da semana, se esgueirando entre uma barraca e outra na tentativa de comprar os melhores hortifrutigranjeiros.

Ela se espantou a vê-lo, e ele quase flutuou de tanta surpresa e satisfação. O sorriso desenhado após o primeiro impacto foi à brecha que precisava para dar os poucos passos até chegar onde ela estava. Lá chegando fez um gracejo para quebrar o clima e as primeiras palavras foram trocadas avivando ainda mais o aquele desejo inexplicável quehá tempos pairava sobre eles. O som da voz de ambos compôs a trilha sonora de um amor que nascera no silêncio e na magia do olhar e que naquela hora era real e palpável.

Ao se apresentarem descobriram que moravam próximos, tudo convergia na direção dos apaixonados e não tardaram os encontros e oficialização do namoro.

Já havia algumas semanas que não aparecia na quadra para o costumeiro futebol, quando reapareceu contou aos amigos que estava a namorar a pequena de cabelos longos e tênis cor de rosa que nos dias do futebol compunha o quinteto que passava por ali.

Como elas não estavam mais utilizando aquele trajeto, os amigos do futebol logo imaginaram que a mudança de caminho tivesse relação com o namoro do colega, mas o amigo não confirmou nada, apenas disse ter comentado com sua pequena que todos as observavam quando passavam.

Um amigo mais atirado enumerou as qualidades que viu nas outras quatro mulheres e ousou dizer a ele quesua escolha não foi pela mais bonita. Que as outras tinham mais atrativos que a pequena de tênis cor de rosa.

Ele não se alterou e olhando para o autor da observação inoportuna fez questão de dizer que seu olhar na direção das caminhantes não era o mesmo que um predador direciona a sua presa, era de um homem a contemplar a beleza feminina, e prosseguiu dizendo que algumas coisas ele não sabia explicar, apenas disse que a pequena de olhar encantadorcontinha à dose de beleza que precisava. Seu andar e cabelos ao vento dava a ela um toque de formosura. Seu olhar não era comum, tinha a capacidade de fazer brotar nele um turbilhão de emoções. Em seu rosto estava sempre presente um sorriso inebriante. E finalizou dizendo que quando ouviu a voz daquela moça pela primeira vez, as palavras que pronunciava pareciam acordes de uma canção, tamanha era a satisfação que provocara nele.

Ele viu nela muito mais do que seus olhos pudessem mostra-lo. A sensibilidade presente naquele homem fez nascer neleum amor que veio sendo gestado desde o primeiro olhar da simpática moça, e que pelo visto tinha oculto muito mais coisas que a razão jamais explicará.

Ele gostava desse jeito desprendido de amar e pretendia passar o resto de sua vida ao lado da moça que suavemente foi morar no seu coração e já pensava na velhice imaginando o tempo em que sua força e vigor já estivessem limitadas, a ele bastava à companhia e o brilho da pequena, pois entendia que numa relação a dois o corpo era apenas algo palpável. Pensou em dar a ela um amor que exigisse dele uma entrega total e que dela apenas esperasse, mas se ele conseguisse que ela o amasseincondicionalmente ai sim teria no amor a plenitude, pois de sua parte seria todo.

Seu pensamento era enfrentar o que a vida lhe impusesse e a união entre eles seria o combustível necessário para as pretensas vitórias.

O namoro culminou no matrimônio, e nesse tempo sofreram um acidente de automóvel e ela ficou alguns meses de molho se recuperando. Ela o perguntou se em algum momento cogitou procurar outra mulher, afinal seu estado de saúde a deixara inerte e impossibilitada de ser tocada, pois a dor por todo corpo era intensa. Ele em contrapartida respondeu prontamente que seu amor nascera de dentro para fora e, portanto mais que os desejos do corpo eram os da alma. Ele sempre esperou dela um sorriso como aquele que naquela hora se fazia.

Eu te toco a todo o momento, eu te sinto a toda hora, basta parar diante de ti e olha-la. Eu te escolhi dentre todas as outras mulheres. Foram as palavras que disse em resposta a pergunta de sua amada.

Olha meu amor! Eu sei que o fato de eu ter casado não me faz cego diante das outras mulheres, as que antes eram bonitas continuarão sendo, porém também sei que o amor é uma decisão e eu decidi te amar e não importa que outras mulheres sejam bonitas, importa é saber o que eu vou fazer com isso.

E assim já cansado de falar voltou a reclamar dizendo que os amigos achavam seus pensamentos utópicos por não seguir regras estabelecidas pela sociedade. Regras essas que nem sempre são justas.

Disse-me ainda que o amor necessita nascer primeiro no coração e só depois irradiar por todo o corpo, pois o nosso exterior apenas nos apresenta e o que se vê nem sempre mostra o que somos. Um amor de verdade nos ampara em nossas misérias e sendo assim sempre haverá de subsistir.

Continuarei com minhas certezas e as sustentarei, vou amar minha esposa incondicionalmente porque a escolhi, quanto a ela só espero que me ame também é tudo que posso querer. A gratuidade do amor não me ampara nas exigências e imposições, e sendo assim meu amor deve almejar o dela, mesmo que nesse ambiente de liberdade eu corra o risco de perdê-la, afinal amar não depende de sensações, amar é um querer ininteligível e quando exijo algo do outro logo não amo. O amor é gratuito.

É isso que penso e que nunca abrirei mão.

Foram essas as últimas palavras de um homem que incomodado com publicações das redes sociais explicou o amor a partir de sua vida e me fez entender que o amor é muito mais do que os nossos olhos podem ver.


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