‘Corpos que se cansam’, por Paulo Geovane e Silva

06/11/2017 às 12:47 por Atualizado dia 06/11/2017 às 12:47

Paulo Geovane e Silva é professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Belo Horizonte (FACISABH) e do Coleguium Belo Horizonte, mestre e doutorando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (Portugal). Escreve mensalmente no Voz Ativa.

Engana-se quem pensa que hoje não falarei sobre literatura. Mesmo que eu não cite aqui nenhum livro, nenhum escritor ou escritora, ou ainda nenhuma referência ficcional ou poética, qualquer assunto sempre há de manter alguma relação com a literatura, pois ela existe em tudo e tudo existe nela, essa arte-palavra conectada ao mundo num abraço simbiótico, crescendo de forma silenciosa e por vezes opaca, pedindo para ser desvendada – donde surgem exatamente as noções aristotélicas de mimese e de verossimilhança, tão a propósito do que aqui tratarei. Parafraseando a querida Cecília Meireles, há outras formas de ver o mundo e combater-lhe o aparente silêncio e a sua suposta solidão. Tudo nos diz. E a literatura nos diz para além do texto – para quê fizeram o mundo senão para ser lido?

Falemos de contratos sociais: dos muitos que permeiam qualquer ciclo da vida humana, o casamento certamente é o mais curioso e – ao mesmo tempo – o mais impactante de todos eles. Curioso pela sua convulsiva verdade diacrônica; impactante porque, mesmo diante de sua própria risibilidade, o casamento, por muitas razões, se mantém. Mas a qual casamento posso me referir se, como sabemos, há tantos tipos de enlace afetivo? Sem segredo e despretensiosamente: refiro-me ao casamento matrimonial, o que – pasmem! – não é uma redundância. Enquanto a palavra casamento aponta para um conjunto de formas para a vivência da união estável, a ideia de matrimônio aponta justamente para o caráter religioso que o Cristianismo imprimiu a esse contrato social. O casamento, portanto, veio bem antes do matrimônio – e este último, por seu turno, é o verdadeiro responsável pela perplexidade que me toma o pensamento e a qual passo a comentar como raso e indigno enunciador.

Não nos esqueçamos que a Idade Média, cujo período histórico destaca uma singular etapa da caminhada humana, tem grande parcela de responsabilidade nesse fenômeno humano: na grande maioria dos casos, o casamento era um contrato social entre monarcas – as famílias organizavam enlaces matrimoniais mais para manter o dinheiro dentro de um mesmo núcleo social do que por afetividade, por amor. Para manter a linhagem pura e a riqueza centralizada, todos os casamentos eram arranjados “contratualmente”, isto é, atendendo a interesses de ambas as partes familiares (em cujo processo a mulher normalmente não tinha direito a manifestar os seus próprios interesses, claro esteja). A Igreja Católica, que na Idade Média exercia forte papel político, também entrou na história e, assim, instituiu o matrimônio como uma forma de justificar o absurdo das uniões entre homens e mulheres que, também na maioria dos casos, não se amavam: criou-se, para isso, o sacramento do matrimônio como uma forma de dar credibilidade espiritual e tom de vontade divina à necessidade de se casar. Deus fazia questão do casamento. Vale lembrar que falo da Idade Média?

Essa história colou e, hoje, num tempo em que o governo monárquico não tem tanta força, o eco da História ainda se faz ouvir: para muitas pessoas, o matrimônio é imposto como uma determinação necessária à felicidade humana – ai de quem não se case! Ficará para a tia, será solteirão ou solteirona, não será abençoado por Deus etc. Esquecem-se, entretanto, que o que hoje é uma instituição começou, ainda ontem, como um contrato social explicitamente edificado. E o que resulta disso é uma distopia entre o matrimônio e os corpos que nele se envolvem – eis a gravidade da situação.

Pensemos nesses corpos: se todas as coisas existem justamente em prol de uma perecibilidade a elas inerente, com o casamento não seria diferente – mas o matrimônio insiste em desmentir o que é evidente, motivo pelo qual, como eu já disse, não se trata propriamente de uma redundância. Mesmo diante de tal cenário, não há como negar: relações se desgastam e o próprio prazer sexual, componente do casamento, vai se deteriorando. São corpos que se cansam. E este tempo em que estamos, situado no limiar entre o moderno e o pós-moderno, insiste em negar tal verdade, a verdade de que os corpos não foram feitos para a relação monogâmica eterna – as pessoas se cansam das limitações, dos mesmos fetiches, das mesmas posições sexuais e da mesma forma de orgasmo. As pessoas se cansam dos mesmos corpos… Desejam outros toques e outros calores, pelo simples instintos eróticos e sexuais, não menos inerentes aos seres humanos. Cansam-se, por extensão, das manias e das dificuldades do companheiro ou da companheira, cujos traços adquirem gravidade na medida em que os corpos se prostram diante do próprio cansaço (às vezes mútuo e velado). Por outro lado, não nego que a relação pode se manter quando existe uma ligação afetiva que, mesmo estando associada à sexual, prevalece e se impõe. Não falo a partir de binarismos.

O matrimônio, se não anula essas invencíveis diferenças entre amor e sexo, coloca-as normalmente no mesmo campo de representação, de tal modo que afetividade e sexualidade passam a ser vistas como símiles de um mesma realidade – mas nunca serão as mesmas coisas. Nunca – e aí está ela, a literatura, a nos mostrar que essa síndrome de eternidade chamada casamento foi uma narrativa que mais se cristalizou como verdade na mentalidade ocidental (e não só). Na mesma proporção, dentro da literatura e dentro da vida (se é que não se trata aqui de uma perfeita simbiose), o casamento – tal como ele está aqui colocado – tem sido o responsável pelo cansaço e morte de milhões de corpos.

Se as pessoas soubessem que não são obrigadas a viver sem amor; se se desprendessem daquele pretensioso sentimento de eternidade; se reinventassem as próprias narrativas e se, num ato heroico, reinventassem-se dentro de sua própria diegese existencial, tudo seria mais pacífico e a vida seria mais leve, tal como sugeriu Italo Calvino em Seis propostas para o próximo milênio, às quais eu adicionaria uma outra: a perecibilidade.

Enuncio-me sempre a partir do que vejo – não se esqueçam.

Até logo!


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