“Como é viver conectado II ou Sair do Brasil e continuar no Brasil, a um só tempo”, por Hércules Tolêdo Corrêa

07/05/2018 às 13:53 por Atualizado dia 07/05/2018 às 13:53

Hércules Tolêdo Corrêa é professor da UFOP e apaixonado por literatura, cinema, música e mais um monte de coisas.

Dizem que “santo de casa não faz milagre” e acho que, como todo bom ditado, esse tem muito de verdade. O fato é que tenho ouvido falar muito mais do educador Paulo Freire aqui em terras canadenses do que no meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro e pouco afeita a valorizar a escola, a educação e, principalmente, os professores. Paulo Freire foi citado pela minha supervisora de visiting scholar em uma entrevista que fiz com ela, foi citado pelo professor da educação básica que estou acompanhando e também pela minha jovem professora de inglês de um grande centro internacional de ELS, para quem não sabe, English Second Language, ou seja, ensino de inglês para não nativos, para aqueles que querem usar o inglês como sua segunda língua.

 Comecei falando do Paulo Freire e da forma como o tenho visto valorizado aqui em terras gringas, para tratar do assunto que dá título a esta crônica, ou seja, como eu saio do Brasil e não saio ao mesmo tempo, vivendo o dia todo conectado. Adormeço com o computador ligado, geralmente ouvindo algum programa de rádio brasileiro on-line. Quando acordo, antes mesmo de ir ao banheiro, ligo o smartphone, que passa a noite carregando, e já recebo cerca de 200 mensagens, no mínimo.

A maioria, é bem verdade, não é nada relevante, já que estou participando de uns dez grupos e boa parte deles não tem a mínima utilidade. Mas isso é passageiro, em breve me desligarei da mai oria, ficando apenas com os três ou quatro grupos que me interessam e que geralmente só mandam coisas mais úteis. Mas o que o Paulo Freire tem mesmo a ver com tudo isso… ah, é porque, pra contradizer o que afirmei lá em cima, enquanto cá estou realizou-se, na Faculdade de Educação da UFMG, o II Congresso Internacional Paulo Freire: o legado global, com o tema “Formação de educadoras(es), diversidade e compromisso social”. Não por acaso, o I Congresso Internacional Paulo Freire: o legal global precisou acontecer primeiro em terras muito mais distantes do que desta em que vos escrevo. O congresso aconteceu em 2012 na longínqua New Zeland, lá pelas bandas da Austrália, por onde Freire também andou, quando vivo, divulgando suas brilhantes e ousadas ideias na área educacional.

Pesaroso por não poder participar do evento, regozijei-me ao saber que as palestras seriam transmitidas em tempo real por um canal no Youtube e que ficariam, posteriormente, ali gravadas, registradas para a posteridade e acesso de qualquer mortal, de qualquer canto do mundo. Foi assim que, além de dormir e acordar conectado, graças à rede mundial de computadores e sua vertiginosa evolução nos últimos vinte anos, eu pude assistir em tempo real as “colocações” dos convidados, dentre eles a viúva do Professor Freire, a também educadora Nita Freire, e os professores da FAE-UFMG, Miguel Arroyo e Nilma Lino Gomes, dentre vários outros, não menos ilustres. Pude, daqui, identificar colegas e amigos na plateia, fazendo perguntas, assistindo atenta ou desatentamente à palestra. Muitas vezes, vi colegas flagrados com seus dedinhos nervosos nos smartphones e tablets, enquanto fingiam assistir à palestra. Não há aqui nenhuma crítica, juro! Eu mesmo sou um que tenho nervosos dedos enquanto assisto aulas, conferências ou participo de reuniões e bancas.

Mas não é só isso que caracteriza minha conexão 24 horas com minha vida brasileira: sempre que posso ouço os meus programas prediletos da Rádio Inconfidência, o Casa Aberta e o Bazar Maravilha, enquanto escrevo meus artigos ou leio artigos e livros de outrem na tela do computador. Também ficou louco para assistir aos episódios de Onde nascem os fortes, macrossérie que vem sendo exibida pelo maior canal de TV brasileiro e acompanhando o ótimo Carcereiros, que vai ao ar apenas uma vez por semana. Não assinei a GPlayer, porque não quero dar dinheiro para esta rede do que já dou, indiretamente. Usei o app por sete dias, gratuitamente, como me foi ofertado, mas não fiz a assinatura. Já pago Sky no Brasil, que acredito esteja com os dias contados, pelo menos para mim, porque o Netflix já tem substitu ído bem a TV por assinatura e seu custo é de um quinto do meu plano basiquinho. Imagina se eu tivesse um plano top de TV a cabo, seria um décimo. Não é para qualquer brasileiro, menos ainda para um mero professor universitário, que tem visto seu salário se achatar cada vez mais e ainda estamos nos primeiros anos da PEC do Fim do Mundo. Imagina daqui a cinco, seis anos…

Também me conecto sempre ao piratão tanoar.eu, um site que disponibiliza gratuitamente os principais programas da TV aberta, cerca de 24 depois de exibidos. Minha amiga me disse que esse site enche nossos computadores de vírus e outras maldades tecnológicas, como como não me ocorreu, ainda, maior prejuízo, finjo que nem fiquei sabendo disso. Outro programa que não gosto de perder, é o bairrista Terra de Minas, que a rede todo-poderosa disponibiliza na íntegra a todos, mesmo quem não é assinante exclusivo de seu canal. Adoro ver minha terra representada na telinha e vez por outra vejo conhecidos e amigos ali.

Dessa forma, pelo que contei acima, é que eu estou aqui mas não saí daí. Do meu quartinho no segundo andar de uma imponente casa vitoriana de um bairro central de Toronto, eu fico com meus periscópio-panóptico voltado para as terras brasileiras, principalmente a grande mídia (sim, porque não falei do acesso à Folha de S. Paulo e ao site do UOL, que assino desde a pré-história da internet em minha vida) e para o meu pequeno mundo, porque pelo whatsapp vejo e falo com família e amigos o tempo todo! Salve o mundo conectado e a internet ubíqua!


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11 comentários

  1. Na verdade somos filhos dá nossa terra , e por mais q outros lugares tenha sua magia , nada é melhor q nosso lar
    E internet bem aproveitada.
    Ajuda ficamos bem px dá nossa casa e dos nossos amigos e familiares

  2. Crônica perfeita do meu amigo Hércules. Penso que estar conectado é também permanecer torcendo para que as más notícias do nosso amado Brasil sejam substituídas pela esperança. Também gosto dos programas de rádio que Hércules ouve, são informativos, culturais e de boa música. Eis o lado bom da tecnologia, que tornou o mundo “pequeno” e acessível através do note book e do celular. Tenho uma amiga que mora em Londres há quase um ano, ela não se desliga, está mais bem informada que a grande maioria dos brasileiros.

  3. Ah, meu amigo, sua crônica está repleta de você, com essas brincadeiras suaves e esse carinho que consegue aparecer até mesmo quando você escreve sobre tecnologia. Estamos sempre conectados, inclusive daquele jeito antigo, com aquele aparelho tão ancestral: o nosso velho e pulsante coração.

  4. Ler você é uma delícia sempre!!!! Aprender assim é um privilégio e ter você por perto é um dos maiores presentes!!!! VOLTA…VEM SER FELIZ AO NOSSO LADO!!!

  5. Hércules, que crônica linda e cheia de vida, com destaques para coisas boas do Brasil. Aproveite Toronto conectado conosco. Um abraço

  6. Parabéns pela crônica. Ressaltou a pessoa de Paulo Freire, grande educador brasileiro. Muito bem lembrado. Admiro sua pessoa que consegue ficar conectado com o mundo, inclusive conosco, sua família e sempre muito atencioso. Um grande abraço.

  7. Adorei a crônica tanto quanto adoro a internet por permitir a nossa conexão! 🙂

  8. Obrigado a todos que comentaram esta crônica. Espero continuar contribuindo com o jornal Voz Ativa de Ouro Preto e região. Amigos queridos, leiam também os outros textos. O jornal tem coisas muito legais! Abração canadense a todos! 🙂

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