‘Bastidores de um Enem’, por Roberto dos Santos

16/11/2017 às 13:49 por Atualizado dia 16/11/2017 às 13:49

Roberto Santos, 47 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 13 anos.

Era o primeiro dia do Enem, jovens e adultos se misturavam nos pátios das escolas esperando a hora de começar a prova.

Nas conversas paralelas predominava as especulações acerca do que viria. Uma breve análise dos acontecimentos do país e lembranças do Enem do ano anterior trazia a tona uma discussão acirrada que conjecturava um possível assunto a figurar na proposta da redação daquela tarde. Das noventa questões, apenas a redação preocupava aquele pessoal que ocupava as dependências da Escola Estadual Marília de Dirceu. Alguns tentavam fugir da ansiedade fotografando as belezas de Ouro Preto que podiam ser vistas de lá. Os celulares miravam-se na Igreja Nossa Senhora das Mercês e perdões, nas pedras das Lajes, no Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias e mais ao longe na casa dos Inconfidentes e Capela das Dores. Esse foi o jeito que algumas pessoas encontraram para aliviar a tensão que precedia o inicio da prova.

Uma coisa me chamou atenção naquela espera angustiante. Uma Senhora de feições risonhas que passava entre as pessoas e parava sempre onde encontrava um grupo que lhe chamava a atenção. Sem desmanchar o sorriso proseava e fazia as pessoas rirem.

Parecia estar num parque de diversões dado o estado de leveza em que se encontrava.

O pátio foi se esvaziando, ela e todos por ali se deslocaram até as respectivas salas e eunão descobri o que a Senhora risonha falava que conseguia quebrar o nervosismo dos participantes do Enem que aguardavam o inicio da jornada..

No segundo dia de prova cheguei pouco depois da abertura dos portões, sentei debaixo de uma árvore de grande porte bem na frente do prédio da Escola. À medida que os minutos iam passando, o lugar ia ficando repleto de pessoas de todas as idades, algumas caras eram conhecidas do domingo anterior, outras eu via pela primeira vez.

Não tardou muito e a Senhora risonha apareceu. Estava cansada, pois o sol que incidiu sobre ela na caminhada até o Marília de Dirceu estava quente e isso a fez abrigar-se sob as árvores procurando sombra e ar fresco,depois tomou um pouco de água que trazia em sua garrafa transparente, prova de que estava inteirada das regras do Enem.

Cinco minutos foram suficientes para se refazer e iniciar uma prosa com três jovens que também se encontravam a sombra da árvore.

Uma das jovens quis saber suas pretensões quanto ao Enem, que curso pretendia fazer, porque só agora quis realizar o desejo de fazer uma faculdade.

Respondeu que tinha sessenta e um anos, era separada a quinze, seus dois filhos já estavam formados e trabalhavam em outro estado e como já tinha mais de sessenta e ainda muitas vontades pendentes, resolveu começar de novo e o Enem foi o marco escolhido para o recomeço.

As jovens gostaram da simpática Senhora e a incentivaram a persistir na sua nova filosofia de vida.

Antes de entrarem para a sala, as jovens perguntaram sobre a redação, ela gargalhou e começou a partilhar seus escritos. Acho que vou tirar zero, disse a sessentona explicando na sequência o motivo de pensar assim. Confundi algumas coisas e quando percebi já era tarde.

Quando comecei a ler vi o enunciado falando sobre inclusão, comecei a escrever e quando voltei aos textos motivadores para esclarecer uma duvida, vi que falava de libras, achei que era sobre horóscopo e escrevi mais um pouco. Busquei mais informações para finalizar a redação e vi que falavam de surdos, então percebi que o termo “libras” se referia à linguagem dos surdos.

Como já estava acabando a redação, conclui do meu jeito e larguei pra lá.

As moças riam tanto da forma em que a alegre senhora se expressava que custaram para conter os risos. Perguntada sobre o restante das questões, ela disse ter conseguido fazer e acrescentou que foi preciso ser rápida.

Entramos todos e fomos fazer a derradeira avaliação e quando faltavam trinta minutos para o fim, terminei a minha prova e deixei a sala em direção ao portão. Lá chegando vi um aglomerado de pessoas, e dentro de uma roda de discussõesestavaà risonha Senhora que mais parecia uma palestrante a discorrer sobre a findada prova. Parei para ver e ouvir as considerações da senhora que provocava risos nas pessoas.

Dizia de uma questão da prova que ocupava uma folha inteira, e sempre que estava quase acabando, precisava ler de novo, pois havia entendido apenas parcialmente a pergunta. Irritada com o tamanho dos textos motivadores e o tempo gasto pra entender o que propunham, não quis ler de novo e optou pela letra “B”, disse isso em meio a sonoras gargalhadas. E prosseguiu dizendo que não aguentava mais tanta leitura, e que tal procedimento iria fazê-la boa mesmo era no português.

Talvez esse povo que pensou o Enem quisesse mesmo era testar minha paciência ou a minha capacidade de sobrevivência, afinal tinha que ler, analisar e responder noventa questões.

Eu não consegui, pode ser que alguns tenham conseguido devidamente, quanto a mim precisaria de uns três dias para fazer aquilo tudo.

A questão nem é quanto ao conhecimento e sim o tempo para exercê-lo plenamente.

Eu pensei que o Enem pretendia com as provas era avaliar os meus conhecimentos medindo meu desempenho ao fim da escolaridade básica, mas encontrei foi uma prova de paciência e resistência. Eles não sabem do meu desespero cada vez que a moça tirava uma plaquinha para informar o tempo que faltava. Eu preferia olhar o relógio ao invés daquelas plaquinhas terroristas.

Depois de algum tempo já cansada,mencionou o desejo de ir embora, acrescentando que levaria consigo as fotos que tirou, sendo que a mais importante foi feita quando já estava sentada para fazer a prova.

A sala era a dez, o lugar era na terceira fileira. Olhei na direção da primeira janela ao lado da porta e vi lá no alto a igreja de Santa Efigênia e na posição em que se encontrava, parecia me olhardesconfiada eatônita, não sei se pelo que eu escrevia ou pelos enunciados descomunais de uma prova tão importante, mas que não media muita coisa, a não ser paciência e resistência.

Depois desliguei o celular e o coloquei em um pacote que me deram, e minutos depois o sinal que marcava o inicio da prova soou fortemente.


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